Principais achados
- O mercado voluntário de carbono encolheu em vez de explodir: o valor das transações reportadas caiu para US$ 535 milhões em 2024, queda de 29% sobre 2023 e o menor volume desde 2018, ante um pico próximo de US$ 2 bilhões em 2021, segundo o Ecosystem Marketplace.
- Uma investigação do Guardian, do Die Zeit e do SourceMaterial (2023) concluiu que mais de 90% dos créditos florestais da Verra analisados provavelmente não representavam emissão real evitada, com a ameaça de desmatamento superestimada em cerca de 400% em média nas linhas de base.
- A separação por qualidade virou a principal métrica do mercado: em 2024, créditos de remoção foram negociados a preços 381% superiores aos de créditos de redução, contra 245% em 2023, segundo o Ecosystem Marketplace.
- O carbono regulado europeu seguiu caminho oposto ao voluntário: o preço da EUA chegou perto de €90 por tonelada em janeiro de 2026, o maior patamar desde 2023, oscilando na faixa de €60 a €95 ao longo de 2025 e 2026.
- No Brasil, o SBCE foi criado pela Lei 15.042, sancionada em 11 de dezembro de 2024, com implantação em quatro fases que só completam o ciclo no fim desta década.
01Um mercado que nasceu da culpa e virou especulação
Em algum ponto entre a conferência de Kyoto em 1997 e a última COP, o carbono deixou de ser apenas um problema ambiental e virou um ativo financeiro. Com todas as consequências que essa transformação implica.
O mercado de créditos de carbono funciona, em sua lógica mais simples, assim: uma organização que emite carbono além de um limite estabelecido pode compensar essa emissão comprando créditos de outra organização que sequestrou ou deixou de emitir uma quantidade equivalente. Um crédito representa, em tese, uma tonelada de CO₂ equivalente que não foi emitida ou foi removida da atmosfera.
A palavra que define o problema todo está na frase anterior: "em tese".
Porque a distância entre o que um crédito de carbono promete e o que ele efetivamente entrega é, em muitos casos, enorme. E é nessa distância que vivem oportunistas, especuladores e greenwashers de todos os perfis, ao lado de operadores genuinamente comprometidos com a transição climática.
Este é um mercado que a maioria dos executivos quer entender, muitas empresas estão comprando e poucos realmente sabem como avaliar. Esta pesquisa existe para mudar isso.
02A anatomia do mercado: regulado versus voluntário
O mercado de carbono tem duas estruturas fundamentais que precisam ser distinguidas com clareza, porque operam com lógicas completamente diferentes.
O mercado regulado (compliance)
O mercado regulado existe dentro de sistemas de cap-and-trade, como o EU ETS (European Union Emissions Trading System), o mais antigo e líquido do mundo, em operação desde 2005. Nesse sistema, o regulador estabelece um teto (cap) de emissões para um setor. Empresas que emitem abaixo do teto podem vender seus créditos excedentes. Empresas que emitem acima precisam comprar créditos ou pagar multa.
O preço da permissão europeia, a EUA, chegou perto de €90 por tonelada em janeiro de 2026, o maior patamar desde 2023, depois de alta de cerca de 13% na média anual de 2025. Não é uma escalada linear: ao longo de 2025 e do primeiro semestre de 2026 o preço oscilou na faixa de €60 a €95, recuando para perto de €72 em abril e voltando à casa dos €80 em junho, sensível a preço de gás, geopolítica e expectativa de integração com o mercado britânico. A Califórnia, a Nova Zelândia, o Reino Unido e a China operam sistemas próprios, com preços e regras distintas.
Esses mercados são regulados, auditados e têm liquidez real. São o que existe de mais próximo de um mercado de commodities climáticas com mecanismo de preço confiável.
O Brasil ainda não tem um sistema cap-and-trade federal operacional. O SBCE, Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões, foi criado pela Lei 15.042, sancionada em 11 de dezembro de 2024, e sua implantação é explicitamente faseada: até 12 meses, prorrogáveis por mais 12, para a regulamentação; depois um ano para operacionalizar o relato de emissões; depois dois anos de monitoramento e reporte obrigatórios; e só então a vigência do primeiro Plano Nacional de Alocação, com distribuição das Cotas Brasileiras de Emissões. Somando as fases, o mercado regulado brasileiro só funciona por inteiro no fim desta década. Quem vende urgência regulatória para 2026 está vendendo outra coisa.
O mercado voluntário (VCM)
O mercado voluntário é onde as coisas ficam mais complexas, e mais interessantes.
No VCM, não há regulador obrigando ninguém. Empresas compram créditos de carbono voluntariamente, geralmente para cumprir metas de neutralidade climática que se autoimpuseram ou por pressão de stakeholders (clientes, investidores, funcionários). Os créditos são emitidos por padrões privados como Verra (VCS), Gold Standard, American Carbon Registry e outros.
E aqui está o dado que contraria quase todo material comercial sobre o assunto: o mercado voluntário encolheu. Segundo o State of the Voluntary Carbon Market 2025, do Ecosystem Marketplace, o valor das transações reportadas caiu 29% em 2024, para US$ 535 milhões, com volume negociado 25% menor e o pior desempenho desde 2018. O pico havia sido em 2021, perto de US$ 2 bilhões, quando o mercado quadruplicou em um único ano na esteira das promessas de neutralidade.
O que aconteceu entre um ponto e outro tem nome: a crise de integridade. As investigações sobre qualidade de créditos florestais, o receio de acusação de greenwashing e o endurecimento de critérios afastaram compradores. Vale notar, porém, um detalhe que muda a leitura: as aposentadorias de crédito, que medem o uso efetivo, permaneceram estáveis em torno de 182 milhões de toneladas. Ou seja, quem realmente usava crédito continuou usando. O que desabou foi a especulação e a intermediação.
Projeções otimistas de US$ 10 bilhões a US$ 50 bilhões para 2030 continuam circulando, e é justo dizer de onde vêm: foram elaboradas entre 2021 e 2023, antes da correção, por consultorias e bancos com exposição ao tema. Nenhuma delas é dado realizado, e a trajetória observada desde então anda na direção contrária. A rito.ag recomenda tratá-las como cenário de alta, não como base de plano de negócios.
É no VCM que o Brasil tem posição estratégica singular, e é nele que os riscos de greenwashing e especulação são mais altos.
03O problema da qualidade: nem todo crédito vale uma tonelada
A questão central do mercado voluntário de carbono não é o preço. É a qualidade.
Um crédito de carbono só vale o que promete se a redução ou remoção de emissões que ele representa for: real (aconteceu de fato), mensurável (foi quantificada com método científico), permanente (a redução não vai ser revertida), adicional (não teria acontecido sem o incentivo financeiro do crédito) e verificada independentemente.
Esses cinco critérios são simples de enunciar e brutalmente difíceis de verificar. Eles não formam um "padrão" único com nome próprio: são princípios que atravessam os diferentes programas de certificação, cada um com sua própria metodologia para tentar comprová-los.
O problema da adicionabilidade
O critério mais difícil de verificar é a adicionabilidade. Para que um crédito seja legítimo, a floresta preservada, a energia solar instalada ou o biogás capturado não poderia ter acontecido sem o dinheiro do crédito. Se ia acontecer de qualquer forma, o crédito não representa emissão evitada real, representa uma ficção contábil.
Uma investigação de nove meses conduzida pelo Guardian, pelo semanário alemão Die Zeit e pela organização de jornalismo investigativo SourceMaterial, publicada em janeiro de 2023, analisou projetos de proteção florestal certificados pela Verra sob o mecanismo REDD+. A conclusão: mais de 90% dos créditos florestais analisados provavelmente não representavam redução real, e a ameaça de desmatamento havia sido superestimada em cerca de 400% em média nos modelos de linha de base, segundo análise apoiada em estudo da Universidade de Cambridge.
A Verra contestou publicamente a metodologia da investigação. Ainda assim, o episódio marcou o mercado, o então presidente da organização deixou o cargo poucos meses depois e o setor entrou num ciclo de revisão de metodologias que segue em curso. A queda do valor transacionado a partir de 2022 é, em boa medida, a fatura desse episódio.
O problema da permanência
Florestas pegam fogo. Áreas de conservação são desmatadas quando governos mudam. Projetos de reflorestamento fracassam por seca, praga ou abandono financeiro.
Um crédito de carbono baseado em sequestro florestal promete que aquele carbono vai ficar fora da atmosfera por décadas. Mas o que acontece quando a floresta queima? Quem restitui o comprador? Qual é o mecanismo de garantia?
Os padrões mais rigorosos exigem que os projetos mantenham um buffer pool, uma reserva de créditos não vendidos que cobre riscos de reversão. Mas o tamanho adequado desse buffer, e quem fiscaliza se ele existe de fato, são questões ainda não resolvidas de forma satisfatória no VCM.
O problema do MRV
MRV, Monitoramento, Reporte e Verificação, é o coração técnico de um crédito de carbono. É o conjunto de metodologias que determina quantas toneladas de CO₂ um projeto efetivamente sequestrou ou deixou de emitir.
O problema: muitos projetos, especialmente os menores e em países com capacidade técnica limitada, usam metodologias ultrapassadas, com alto grau de incerteza e sujeitas a erros sistemáticos. A evolução do sensoriamento remoto por satélite, que hoje permite monitorar cobertura florestal com resolução de metros quadrados em tempo quase real, está melhorando isso rapidamente, mas a herança de décadas de MRV deficiente é real.
04O Brasil no centro do mercado
O Brasil ocupa uma posição única e estratégica no mercado global de carbono, por razões que vão além do óbvio.
A Amazônia como ativo climático global
A Amazônia é um dos maiores estoques de carbono terrestre do planeta. As estimativas de quanto carbono a floresta armazena em biomassa variam bastante entre metodologias, e é honesto dizer isso em vez de fingir precisão: a ordem de grandeza está na casa das dezenas a centenas de bilhões de toneladas. Quando a floresta é desmatada, esse carbono vai para a atmosfera. Quando é preservada ou restaurada, serve como sumidouro.
O tamanho da oportunidade brasileira também é frequentemente exagerado, e vale usar números de fonte identificável. Em análise publicada em 2021, a McKinsey calculou que o Brasil tem 488 milhões de hectares de floresta tropical, capturando cerca de 600 MtCO₂e por ano, e um potencial de reflorestamento de 47 milhões de hectares, algo como 30% de todo o potencial global, capaz de adicionar cerca de 700 MtCO₂e anuais. A um preço de US$ 20 por tonelada, o mercado potencial seria de aproximadamente US$ 26 bilhões. A vantagem competitiva está no custo: restaurar no Brasil custa entre US$ 10 e US$ 15 por tonelada, contra cerca de US$ 17 nos Estados Unidos.
Esses números são de potencial teórico, calculados antes da retração do mercado voluntário, e a mesma análise lembra que um projeto florestal leva de cinco a sete anos até emitir o primeiro crédito. A realidade operacional, capacidade de verificação, governança fundiária, conflitos de direito sobre carbono florestal em terras indígenas e assentamentos, torna a execução muito mais complexa do que a planilha sugere.
A confusão sobre quem tem direito ao carbono
Uma das questões mais sensíveis e juridicamente obscuras no Brasil é: quem tem direito sobre o carbono de uma floresta?
O proprietário da terra? O Estado, que é titular dos recursos naturais em algumas categorias de área? As comunidades indígenas e tradicionais que habitam e manejam a floresta há séculos? Todos os brasileiros, já que a Constituição define o meio ambiente como bem de uso comum do povo?
A Lei 15.042/2024 avançou ao reconhecer direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais sobre os projetos em seus territórios e ao tratar o crédito como ativo, mas não encerrou a discussão. Segue existindo um espaço cinzento que, na prática, permite que projetos sejam estruturados sobre terras com direitos sobrepostos, criando risco jurídico para os compradores e, mais grave, potencial de exploração de comunidades que não recebem a parte que lhes cabe do valor gerado.
Casos de conflito entre comunidades e empresas que vendem créditos baseados em seus territórios já foram documentados por imprensa e por órgãos de controle no Brasil, e são acompanhados de perto por investidores internacionais que monitoram o ambiente regulatório do país. Para quem compra, a lição prática é direta: due diligence fundiária e consulta livre, prévia e informada não são item de ESG, são item de gestão de risco.
Fontes: McKinsey & Company (2021), potencial de reflorestamento e captura; Lei 15.042/2024; síntese editorial rito.ag.
O Cerrado: o bioma esquecido do carbono
Enquanto toda atenção vai para a Amazônia, o Cerrado, a savana mais biodiversa do mundo, segue sendo desmatado em ritmo acelerado e com muito menos visibilidade internacional.
O Cerrado abriga 5% da biodiversidade global e armazena carbono em seu sistema radicular de forma que não é capturada adequadamente pelos modelos convencionais de MRV, que historicamente medem biomassa acima do solo. Metodologias específicas para carbono de solo do Cerrado estão sendo desenvolvidas e representam uma fronteira importante tanto científica quanto comercialmente.
Empresas brasileiras do agronegócio, que operam em grande parte sobre área de Cerrado desmatado, estão entre as mais interessadas no desenvolvimento dessas metodologias, já que oferecem um caminho para créditos baseados em manejos agrícolas de baixo carbono que poderiam ser integrados à sua cadeia de produção.
05O guia mínimo para quem compra
Empresas que compram créditos de carbono no VCM enfrentam um mercado opaco, com enorme assimetria de informação entre vendedores especializados e compradores que frequentemente não têm o conhecimento técnico para avaliar o que estão comprando.
Antes de comprar um crédito de carbono, qualquer empresa responsável deve verificar:
O padrão de certificação. Nem todo padrão tem o mesmo rigor. Verra VCS e Gold Standard são os mais estabelecidos, mas mesmo dentro desses padrões existem projetos de qualidade muito variável. O standard é necessário mas não suficiente.
A safra do crédito. Créditos mais recentes, de projetos em operação atual, têm menor risco de problemas regulatórios e de reversão do que créditos vintages antigos.
O tipo de projeto. Projetos de remoção (que tiram carbono da atmosfera) são hierarquicamente superiores a projetos de evitamento (que evitam emissão que poderia acontecer). Dentro de cada categoria, projetos com co-benefícios verificados, biodiversidade, meios de vida de comunidades, recursos hídricos, têm maior integridade geral.
A cadeia de custódia. Através de qual plataforma o crédito está sendo vendido? O broker tem histórico verificável? Existe registro público da transferência de propriedade do crédito?
A estratégia de longo prazo. Comprar créditos para compensar emissões correntes sem um plano de redução de emissões próprias é uma estratégia que está sendo progressivamente rejeitada por analistas ESG, pela Science Based Targets initiative e pelo próprio mercado. O crédito deve ser complemento à redução, não substituto.
06Artigo 6: a regra saiu de Baku, e o Brasil ainda não decidiu o que fazer com ela
Há uma confusão de calendário que circula bastante e vale desfazer, porque ela muda a leitura estratégica. O Artigo 6 do Acordo de Paris não foi destravado em Belém. Foi na COP29, em Baku, em novembro de 2024, que quase duzentos governos aprovaram os padrões e metodologias que operacionalizam o Artigo 6.4, o mecanismo centralizado de mercado sob a ONU, e destravaram as regras de negociação bilateral do Artigo 6.2, encerrando quase uma década de impasse.
O Artigo 6 define como países podem cooperar em suas metas climáticas por meio de transferências de créditos. O coração do desenho é o sistema de ajustes correspondentes: para evitar dupla contagem, uma redução só pode ser contabilizada em um lugar, no país que gerou ou no país que comprou, nunca nos dois.
A COP30, sediada em Belém em novembro de 2025, tratou de outra agenda. Entregou o pacote batizado de mutirão global, o compromisso de triplicar o financiamento de adaptação para países em desenvolvimento e dois roteiros conduzidos pela presidência brasileira, fora do regime formal da convenção: um sobre reversão do desmatamento e outro sobre transição para longe dos combustíveis fósseis. E lançou o Tropical Forests Forever Facility, o TFFF, um mecanismo de pagamento por resultado para países que mantiverem floresta tropical em pé. O TFFF é conceitualmente distinto de crédito de carbono, e essa distinção importa: ele não gera unidade compensatória para uma empresa abater emissão, ele remunera conservação verificada em escala de país.
O impacto para o Brasil segue sendo grande e a decisão segue pendente. Como país com enorme potencial de geração, o Brasil precisa definir quais créditos está disposto a exportar, cedendo o ajuste correspondente, e quais quer reservar para cumprir a própria NDC. Exportar gera receita imediata e reduz a flexibilidade futura. Enquanto essa política de autorização não fica clara, projetos que dependem de previsibilidade para captar financiamento continuam na fila.
Fonte: UNFCCC, Acordo de Paris, artigos 6.2 e 6.4, com as regras operacionais aprovadas na COP29, em Baku, em novembro de 2024.
07O papel das fintechs e da tokenização
Uma das fronteiras mais interessantes, e mais voláteis, do mercado de carbono é a tokenização: a representação de créditos de carbono como tokens em blockchain.
A promessa é sedutor: transparência absoluta na cadeia de custódia, fracionamento que permite que pequenos investidores participem do mercado, liquidez via exchange descentralizada e auditabilidade em tempo real de cada transação.
A realidade, até agora, é mais complicada. Projetos como o Toucan Protocol e o KlimaDAO, que tentaram criar mercados descentralizados de carbono tokenizado entre 2021 e 2023, trouxeram para a blockchain os piores créditos do mercado, os chamados "hot air credits", créditos antigos de qualidade questionável que estavam parados nos registros e foram tokenizados porque o protocolo não tinha critérios de qualidade adequados. O resultado foi especulação sobre créditos ruins, perda de confiança no modelo e colapso dos protocolos.
A segunda geração de fintechs de carbono, que inclui empresas como a Pachama (rastreamento por satélite e IA), a South Pole e a brasileira Carbonext, está trabalhando com lógica diferente: tecnologia a serviço da qualidade do ativo, não da liquidez do token. A Carbonext, que opera projetos na Amazônia e no Cerrado, usa sensoriamento remoto e IA para MRV contínuo, com relatórios de monitoramento disponíveis em tempo quase real para compradores.
08O que esperar até 2028
Três tendências vão definir o mercado de carbono nos próximos dois anos:
Consolidação regulatória. A implantação faseada do SBCE no Brasil, combinada com o Artigo 6 já operacional, tende a reduzir a fragmentação e aumentar a previsibilidade. Deve também forçar a saída de projetos de baixa qualidade que só sobrevivem na opacidade. É um processo de anos, não de trimestres.
Polarização de preços. Essa é a tendência mais nítida e a mais bem documentada. Em 2024, créditos de remoção foram negociados a preços 381% superiores aos de créditos de redução, contra 245% em 2023, e créditos das safras mais recentes carregaram prêmio de 217% sobre os antigos, ante 53% no ano anterior. Também há efeito de selo: créditos de gás de aterro aprovados pelos Core Carbon Principles do ICVCM subiram 35% de preço entre o primeiro e o segundo semestre de 2024, com volume 149% maior. O "mercado de carbono" como conceito homogêneo está deixando de existir. Já são dois mercados, com compradores e lógicas diferentes.
Fontes: ESMA, relatório sobre os mercados europeus de carbono, 2026; Ecosystem Marketplace, State of the Voluntary Carbon Market 2025, com dados de 2024.
Pressão sobre a alegação, não só sobre o crédito. O eixo do risco corporativo migrou da compra para a comunicação. A Science Based Targets initiative restringe o uso de compensação como substituto de redução própria, e reguladores de publicidade em vários países já puniram alegações de neutralidade sustentadas apenas em crédito. No Brasil, o percurso regulatório mostra que essa consolidação não é linear: a CVM tornou obrigatório, pela Resolução 193, o relato de informações financeiras de sustentabilidade nos padrões IFRS S1 e S2 a partir dos exercícios iniciados em 2026, e em 29 de maio de 2026, pela Resolução 244, revogou essa obrigatoriedade, deixando o reporte integralmente voluntário. Para a marca, a conclusão prática é a mesma nos dois cenários: o que protege não é a norma, é a qualidade do que se compra e a honestidade do que se diz.
09Conclusão: a diferença entre compensar e transformar
O mercado de carbono é uma ferramenta legítima e necessária para financiar a transição climática. Mas é uma ferramenta que pode ser usada bem ou mal, com honestidade ou com oportunismo.
A empresa que compra créditos de carbono de alta qualidade, com rigidez na due diligence, como complemento a uma estratégia real de redução de emissões próprias, está contribuindo para um mercado que funciona, e para a floresta que permanece de pé.
A empresa que compra créditos baratos de qualidade duvidosa para poder declarar "carbono neutro" sem mudar nada na sua operação não está comprando solução climática. Está comprando narrativa.
E a narrativa, como o mercado está aprendendo a cada escândalo de greenwashing revelado, tem prazo de validade cada vez mais curto.
O carbono como moeda tem valor real. Mas só quando representa realidade real.
Esta pesquisa foi produzida pela rito.ag com base em cruzamento de dados do Ecosystem Marketplace e da ESMA, documentos da UNFCCC e decisões da COP29 e da COP30, registros da Verra e do Gold Standard, investigações jornalísticas sobre qualidade de créditos e leitura direta da Lei 15.042/2024 e das resoluções da CVM sobre relato de sustentabilidade.
Metodologia
Cruzamento de dados do Ecosystem Marketplace (State of the Voluntary Carbon Market 2025), da ESMA sobre o mercado europeu de carbono, da UNFCCC e dos registros da Verra e do Gold Standard; análise de investigações jornalísticas sobre qualidade de créditos; leitura da Lei 15.042/2024 e da regulamentação do SBCE; e revisão das decisões da COP29 e da COP30 sobre o Artigo 6 do Acordo de Paris. Projeções de mercado são identificadas como tal, com autor e data, e não são apresentadas como dado realizado.
- Amostra
- Análise de fontes primárias e documentos regulatórios
- Abrangência
- Global, com foco no Brasil
- Atualizado em
- 26/07/2026
Fontes e referências
- Ecosystem Marketplace, State of the Voluntary Carbon Market 2025
- ESMA, EU carbon markets report 2026
- The Guardian, Die Zeit e SourceMaterial, investigação sobre créditos florestais da Verra (2023)
- Verra, Verified Carbon Standard Registry
- UNFCCC, Artigo 6 do Acordo de Paris
- S&P Global, COP29 aprova as regras do Artigo 6.4 em Baku (2024)
- Carbon Brief, principais resultados da COP30 em Belém (2025)
- Brasil, Lei nº 15.042, de 11 de dezembro de 2024 (SBCE)
- McKinsey & Company, Posicionando o Brasil como líder global no mercado de créditos de carbono (2021)
- Science Based Targets initiative (SBTi)
Perguntas frequentes
O que é um crédito de carbono?
Um crédito representa, em tese, uma tonelada de CO₂ equivalente que não foi emitida ou foi removida da atmosfera. Para ser legítimo, precisa ser real, mensurável, permanente, adicional à linha de base e verificado de forma independente.
Qual é a diferença entre mercado regulado e mercado voluntário?
No mercado regulado (como o EU ETS), governos impõem tetos de emissão e empresas compram créditos por obrigação legal. No mercado voluntário, as empresas compram créditos por iniciativa própria, geralmente para cumprir metas de neutralidade climática autodeclaradas.
Os créditos de carbono realmente funcionam?
Dependem da qualidade, e a diferença é enorme. Créditos de alta qualidade, com MRV robusto e verificação independente, representam reduções reais. Créditos de baixa qualidade, como revelou a investigação do Guardian, do Die Zeit e do SourceMaterial em 2023, podem não representar nenhuma redução efetiva. O próprio mercado já precifica essa diferença: em 2024, créditos de remoção valeram 381% mais que créditos de redução.
Qual é o papel do Brasil nesse mercado?
O Brasil tem posição estratégica pela extensão da Amazônia e do Cerrado. A McKinsey calculou que o país concentra cerca de 30% do potencial global de reflorestamento, com custo de restauração entre US$ 10 e US$ 15 por tonelada, abaixo do americano. O SBCE, criado pela Lei 15.042 de dezembro de 2024, está em implantação faseada e ainda não opera plenamente.