Nunca existiram tantos criadores de conteúdo, e nunca se confiou tão pouco neles em bloco. A saída para essa contradição não é ter mais alcance. É construir pertencimento, e o pertencimento mora em lugares cada vez mais fechados.
Resposta rápida

Principais achados

  • A creator economy global deve se aproximar de US$ 480 bilhões até 2027 e o marketing de influência alcançou cerca de US$ 33 bilhões em 2025, mais que o triplo dos US$ 9,7 bilhões de 2020, segundo Goldman Sachs (2023) e Statista.
  • Influenciadores nano e micro entregam de 3 a 4 vezes mais engajamento que macro e mega, e 69% dos usuários dos Estados Unidos já deixaram de comprar algo por causa de um creator ('de-influencing'), segundo o Influencer Marketing Hub e a Harris Poll para o Credit Karma (2024).
  • No Brasil, 69% das pessoas já compraram um produto recomendado por influenciador (Opinion Box com Influency.me, 2025, com 2.000 respondentes), mas apenas 5% dizem comprar por recomendação direta (CNDL e SPC Brasil, 2026): a influência age na consideração, não na ordem de compra.
  • O Brasil tem cerca de 2 milhões de creators e um mercado estimado em US$ 5,47 bilhões, com projeção de US$ 33,5 bilhões até 2034, segundo Influency.me e o relatório Noodle.

01O paradoxo do influenciador em 2026

Existe uma contradição no centro do marketing de influência que quase ninguém enuncia com todas as letras. Nunca houve tantos criadores de conteúdo no mundo, tanto dinheiro circulando entre eles e tanta atenção investida no que dizem. E, ao mesmo tempo, nunca se confiou tão pouco na figura do influenciador como categoria.

Os dois lados dessa contradição têm número. De um lado, a creator economy caminha para cerca de US$ 480 bilhões até 2027, segundo projeção do Goldman Sachs de 2023, e o marketing de influência alcançou cerca de US$ 33 bilhões em 2025, mais que o triplo dos US$ 9,7 bilhões de 2020. De outro, 69% dos usuários de redes sociais dos Estados Unidos já decidiram não comprar algo justamente por causa de um creator, no fenômeno que ficou conhecido como de-influencing, segundo a Harris Poll para o Credit Karma. E no Brasil o contraste é ainda mais nítido: 69% das pessoas dizem já ter comprado um produto recomendado por influenciador, mas apenas 5% afirmam comprar por recomendação direta.

Essa distância entre o 69% e o 5% é o assunto desta pesquisa. Ela revela que a influência não morreu, mas mudou de lugar e de função. Ela deixou de ser uma ordem ("compre isto") e virou parte do ambiente de decisão ("considere isto, junto com dez outras vozes"). E, à medida que a confiança no grande influenciador se dilui, ela se reconcentra em dois lugares: nos criadores pequenos, mais próximos e mais críveis, e nas comunidades fechadas, onde a relação é contínua em vez de episódica.

O público, no sentido antigo de uma massa que assiste, está se fragmentando. O que nasce no lugar dele é a tribo: menor, mais engajada, mais leal e muito mais difícil de comprar com dinheiro de mídia. Esta pesquisa mapeia essa transição e o que ela exige de qualquer marca que ainda pensa em influência como sinônimo de alcance.

02Como chegamos aqui

Para entender por que o poder está migrando, vale reconstruir a trajetória, porque ela explica a lógica do movimento.

No começo havia o broadcast. Até meados dos anos 2000, a atenção estava concentrada na televisão, no rádio e no impresso, e influência era sinônimo de celebridade e mídia de massa. Uma marca comprava espaço e falava para todos ao mesmo tempo, sem resposta.

A primeira ruptura veio com as plataformas. O YouTube nasceu em 2005 e, com o programa de parcerias de 2007, inaugurou a ideia de que uma pessoa comum poderia viver de audiência própria. O Instagram, de 2010, transformou o perfil pessoal em veículo de mídia. O Vine e depois o Musical.ly, que viraria TikTok, consolidaram a partir de 2013 o vídeo curto e a figura do creator nativo de plataforma.

Entre 2016 e 2018 veio o auge do macroinfluenciador e da publicidade paga aberta, a "publi". Foi também quando as primeiras rachaduras apareceram. O colapso do Fyre Festival em 2017, vendido por um exército de grandes influenciadores e revelado como um fiasco, virou símbolo do risco do modelo aspiracional de alcance sem substância. No mesmo ano, órgãos reguladores começaram a exigir sinalização clara de publicidade, tornando o merchandising disfarçado menos eficaz.

A pandemia, em 2020, jogou combustível na creator economy. O consumo migrou para o digital, as assinaturas dispararam, e "creator economy" entrou no vocabulário corrente. Em 2021, plataformas de monetização direta como Substack e Patreon ganharam escala, sinalizando que o creator podia depender menos da marca e mais da própria audiência.

E então, em janeiro de 2023, um vídeo em que a creator Mikayla Nogueira desaconselhou um rímel catalisou o de-influencing, que acumulou centenas de milhões de visualizações. O gesto de dizer "não compre isto" virou conteúdo, e conteúdo popular. Foi o momento em que o ceticismo do público deixou de ser murmúrio e virou formato. Três meses depois, o Goldman Sachs publicava a projeção de US$ 480 bilhões, institucionalizando um setor que, por dentro, já estava mudando de natureza.

03O mapa do dinheiro

Antes de interpretar, é preciso dimensionar. E aqui vale um cuidado que a própria rito.ag adota: alguns números-âncora deste mercado são de 2023 e continuam sendo a melhor citação disponível, mas precisam ser lidos com a data na mão.

A projeção mais citada é a do Goldman Sachs: a creator economy poderia se aproximar de US$ 480 bilhões até 2027, partindo de cerca de US$ 250 bilhões em 2023. Um detalhe do mesmo relatório é mais revelador que o número grande: cerca de 70% da receita dos creators vem de acordos com marcas, e não da monetização direta das plataformas. Ou seja, o setor ainda vive, em boa parte, de publicidade. E é justamente essa dependência que está sob pressão.

O gasto das marcas em marketing de influência confirma a escala. Segundo levantamento da Statista, o mercado global alcançou cerca de US$ 33 bilhões em 2025, mais que o triplo dos US$ 9,7 bilhões de 2020, um crescimento de aproximadamente 240% em cinco anos. Triangulando com outras compilações do mesmo dado, a convergência é forte na casa dos US$ 32 a 33 bilhões.

Há ainda um dado de composição que importa para toda a tese: das dezenas de milhões de creators no mundo, o próprio Goldman estimou que apenas cerca de 4% são profissionais que ganham acima de US$ 100 mil por ano. A creator economy é uma pirâmide íngreme. A maioria esmagadora dos criadores é pequena. E é essa maioria pequena, como veremos, que está concentrando o engajamento real.

Crescimento do marketing de influência: de US$ 9,7 bilhões em 2020 para US$ 33 bilhões em 2025, mais que o triplo, dentro de uma creator economy que caminha para US$ 480 bilhões até 2027 Fontes: Statista (marketing de influência); Goldman Sachs, 2023 (creator economy). Números de creator economy datados de 2023.

04A queda do macroinfluenciador

A intuição antiga do marketing dizia que mais seguidores significavam mais influência. Os dados de engajamento dizem o contrário, e de forma consistente.

O engajamento cai à medida que a base sobe. Influenciadores nano, na faixa de mil a dez mil seguidores, têm taxa média de engajamento em torno de 2,71%, enquanto os grandes despencam para frações disso. No TikTok, os nano chegam a cerca de 10,3% de engajamento contra cerca de 7,1% dos mega, segundo o Influencer Marketing Hub. No Instagram, os micro giram em torno de 3,86%, enquanto macro e mega ficam entre 1,36% e 2,15%. A conta é simples: o pequeno engaja de 3 a 4 vezes mais que o grande.

Por que isso acontece? A resposta não está no algoritmo, está na natureza da relação. Quando um creator tem dez mil seguidores, ele responde comentários, reconhece nomes, parece uma pessoa. Quando tem dez milhões, vira uma marca, e uma marca desperta a mesma desconfiança que qualquer outra publicidade. A escala, que parecia o objetivo, corrói exatamente o ativo que dava valor ao creator: a sensação de que ali fala um igual, não um anunciante.

O Fyre Festival foi o aviso, mas o de-influencing foi a confirmação de que o público aprendeu a ler a publicidade disfarçada de opinião. O grande influenciador não desapareceu, ele continua útil para uma coisa específica, que é alcance e reconhecimento de marca no topo do funil. Mas deixou de ser confiável para a função que realmente importa na decisão: a recomendação em que se acredita.

05A matemática do micro e do nano

Se o engajamento é maior no pequeno, a pergunta é se esse engajamento se traduz em confiança e em decisão. A literatura acadêmica de marketing responde que sim, e explica o mecanismo.

O conceito central é o da relação parassocial: o vínculo unilateral, mas emocionalmente real, que uma pessoa desenvolve com um creator que acompanha. Num estudo publicado no Journal of Business Research em 2023, Rita Conde e Beatriz Casais analisaram como micro, macro e mega influenciadores no Instagram afetam a receptividade a recomendações. O achado é preciso: a persuasão não vem diretamente do número de seguidores, e sim da popularidade percebida e da liderança de opinião, com a relação parassocial atuando como moderadora. Em outras palavras, o que convence não é o tamanho da plateia, é a densidade do vínculo. E o vínculo é mais fácil de construir e sustentar quando a base é menor. Vale a ressalva metodológica: o estudo é um levantamento transversal com respondentes de um único país, então descreve associação, não relação de causa e efeito.

A autenticidade percebida é o segundo motor. Uma pesquisa de Walsh e colegas publicada na Psychology & Marketing em 2024 mostrou, no contexto do TikTok, que a popularidade do creator e o tamanho da marca modulam a percepção de autenticidade, e que essa percepção é o que impulsiona o engajamento com conteúdo patrocinado. Quanto mais o creator parece grande e institucional, mais o conteúdo patrocinado soa como anúncio, e menos engaja.

Junte as duas coisas e a matemática do micro fica clara. O pequeno entrega mais engajamento, mais relação parassocial e mais autenticidade percebida, os três ingredientes da recomendação em que se acredita. O que ele não entrega é escala. E é por isso que a resposta das marcas não pode ser trocar um macro por um micro, mas sim orquestrar muitos micros, o que traz um custo operacional que discutiremos adiante.

Faixa de creator Alcance Engajamento Confiança percebida Melhor função no funil Custo de operação
Mega e celebridade Altíssimo Baixo (~1 a 2%) Baixa Reconhecimento de marca Alto por ativação
Macro Alto Baixo a médio Média a baixa Alcance com alguma afinidade Médio a alto
Micro Médio Alto (~3 a 4%) Alta Consideração e prova social Médio, escala por volume
Nano Baixo Muito alto (~ até 10% no TikTok) Muito alta Conversão e comunidade local Alto por volume de gestão

Síntese editorial: rito.ag, com dados de engajamento do Influencer Marketing Hub e da literatura de marketing citada.

06O de-influencing como sintoma

É tentador tratar o de-influencing como moda passageira do TikTok. Seria um erro. Ele é o sintoma visível de uma mudança estrutural no contrato de confiança entre público e creator.

Os números mostram o tamanho. Segundo a Harris Poll para o Credit Karma, de 2024, 69% dos usuários de redes sociais dos Estados Unidos já deixaram de comprar um item por causa de um creator, e entre a Geração Z esse índice chega a 88%. Um terço cita explicitamente a desconfiança em relação a influenciadores como motivo para não comprar. O gesto de recomendar deixou de ser automaticamente positivo. Recomendar demais virou sinal de que há dinheiro por trás.

A academia começou a estudar o fenômeno. Um artigo de Khalil e colegas publicado na Frontiers in Communication em 2025 argumenta que creators que desencorajam a compra e sinalizam ausência de motivação comercial são percebidos como mais confiáveis, deslocando a lealdade da promoção para a autenticidade. É um estudo qualitativo, com um grupo pequeno de participantes, então vale como leitura interpretativa e não como medida generalizável. Mas a direção é coerente com tudo o mais.

Há uma ironia importante, e a rito.ag faz questão de não a esconder. O de-influencing, na prática, continua sendo influência. Como aponta a eMarketer, quando um creator diz "não compre este, compre aquele", ele está redirecionando a compra, não a suprimindo. O que muda não é o poder de influenciar, é a forma socialmente aceita de exercê-lo: pela crítica, pela ressalva, pela recusa. Numa cultura que desconfia da venda, a maneira mais eficaz de vender virou parecer que não se está vendendo.

07A virada para o fechado

Se a confiança está fugindo da vitrine aberta, para onde ela vai? A resposta é: para dentro. Para espaços fechados onde a relação é contínua, o ruído é menor e o pertencimento é real. Discord, WhatsApp, Telegram, Substack, Circle e Geneva são os nomes dessa migração.

Os números de plataforma dão a escala, sempre com a data à vista. O Discord chegou a cerca de 200 milhões de usuários ativos mensais e 19 milhões de servidores ativos por semana, em dados de 2023. O Substack ultrapassou 20 milhões de assinantes ativos mensais em maio de 2025 e mais de 5 milhões de assinaturas pagas em setembro de 2025, o dobro do ano anterior. O Telegram chegou a 1 bilhão de usuários ativos mensais em março de 2025, com 15 milhões de assinantes pagos do plano premium. O WhatsApp Channels nasceu grande, com 500 milhões de usuários mensais já no lançamento amplo, em 2023.

Por que o fechado converte mais? De novo, a academia oferece o mecanismo. Um estudo de Hwang e Foote apresentado na conferência CSCW em 2021 investigou por que as pessoas participam de comunidades online pequenas e persistentes, e concluiu que esses espaços oferecem valor informacional e relacional único, formando identidade de grupo em vez de apenas relações individuais. O pequeno e nichado não é uma versão inferior do grande: é uma categoria diferente, que gera lealdade mais densa. Um trabalho complementar de Trinkenreich e colegas, apresentado na ICSE em 2023, modelou o senso de comunidade virtual entre desenvolvedores do kernel do Linux e encontrou que motivações intrínsecas, sociais e hedônicas, se associam positivamente a esse senso de pertencimento, enquanto ser pago para contribuir o reduz. O contexto é software livre, não marca, então a transposição é analógica. Mas o achado é desconfortável e útil para quem quer construir comunidade: dinheiro na relação enfraquece justamente o vínculo que se quer criar.

E há o dado que fecha o argumento para o comércio. Uma meta-análise de Wang e Shahzad publicada na SAGE Open em 2024, que sintetizou 119 estudos quantitativos sobre social commerce, encontrou que suporte emocional, qualidade do relacionamento e valor percebido têm as correlações mais fortes com intenção de compra, enquanto qualidade técnica de sistema e serviço pesa muito menos. Traduzindo: nas comunidades, o que faz vender não é a funcionalidade da plataforma, é o vínculo. Exatamente o ativo que as comunidades fechadas produzem melhor que qualquer feed aberto.

Escala das comunidades fechadas: Telegram com 1 bilhão de usuários mensais em 2025, Discord com 200 milhões em 2023, WhatsApp Channels com 500 milhões em 2023 e Substack com mais de 5 milhões de assinaturas pagas em 2025 Fontes: dados oficiais de plataforma compilados por Backlinko e The Social Shepherd. Discord e WhatsApp Channels datados de 2023.

08O funil de comunidade: um modelo da rito.ag

Até aqui, três forças foram descritas em separado: a queda do macro, a força do micro e a migração para o fechado. A rito.ag propõe um modelo que as organiza numa arquitetura única de decisão, útil para qualquer marca reorganizar seu investimento. Chamamos de funil de comunidade.

O funil tradicional de influência tratava tudo como topo: contrate alcance, gere impressões, torça pela conversão lá na ponta. O funil de comunidade separa três funções, cada uma com seu tipo de creator e sua métrica.

No topo, a função é alcance e reconhecimento. Aqui os grandes influenciadores ainda servem, porque entregam escala. A métrica é impressão e lembrança de marca, não venda. É erro cobrar conversão de quem está no topo.

No meio, a função é consideração e prova social, e é o território dos micro e nano. Aqui o que importa não é quantas pessoas viram, mas quantas acreditaram. A métrica é engajamento qualificado, salvamentos, comentários com intenção, cliques que viram pesquisa. É onde a relação parassocial faz o trabalho pesado de mover alguém de "conheço" para "considero".

No fundo, a função é pertencimento e conversão recorrente, e o lugar é a comunidade fechada. Aqui a marca não fala para um público, ela convive com uma tribo. A métrica é participação, retenção, valor ao longo do tempo, defesa espontânea. É onde a lealdade deixa de ser uma pesquisa de satisfação e vira comportamento observável, porque a pessoa volta, participa e traz outras.

A mudança de mentalidade que o modelo exige é esta: parar de comprar alcance esperando lealdade, e começar a construir pertencimento sabendo que ele converte de forma mais lenta, porém muito mais durável. As três camadas se alimentam. O topo enche o meio, o meio qualifica o fundo, e o fundo, quando bem cuidado, devolve advocacia que reabastece o topo de graça.

O funil de comunidade da rito.ag: topo com alcance via grandes influenciadores, meio com consideração via micro e nano, fundo com pertencimento e conversão recorrente nas comunidades fechadas Modelo rito.ag, 2026. Cada camada tem seu tipo de creator e sua métrica própria.

09Quando o creator vira o próprio negócio

Há um segundo movimento acontecendo em paralelo, e ele muda a relação de poder entre marca e creator. O criador maduro está deixando de ser um canal de mídia que a marca aluga e virando um negócio próprio, com produto e receita recorrente.

O caso mais eloquente é o do MrBeast. Segundo documentos a investidores reportados pela Fortune em 2025, sua marca de chocolates Feastables faturou cerca de US$ 250 milhões em 2024, com lucro superior a US$ 20 milhões, enquanto a divisão de mídia, que produz os vídeos, teve prejuízo de cerca de US$ 60 milhões no mesmo ano. Leia de novo: o conteúdo dá prejuízo, o produto dá lucro. O creator não é mais alguém que vende o produto dos outros, é alguém que usa a audiência para vender o próprio.

A infraestrutura da economia de assinatura sustenta esse movimento em escala. Em agosto de 2025, Patreon e Kajabi anunciaram, cada uma, ter repassado mais de US$ 10 bilhões a creators ao longo da existência, somando cerca de US$ 20 bilhões. No Substack, os dez maiores autores somam mais de US$ 40 milhões por ano em receita. O creator de topo já não precisa da marca para existir. Ele tem receita direta da própria comunidade.

A academia adiciona um contraponto necessário a esse otimismo. O estudo de Duffy e colegas, publicado na Social Media + Society em 2021, descreve o que chamam de precariedades aninhadas do trabalho criativo: a visibilidade que sustenta o creator é, ao mesmo tempo, fonte de instabilidade, porque depende de gostos de mercado, de competição entre plataformas e de mudanças algorítmicas que ele não controla. Para a marca, a lição é dupla. O creator maduro tem poder de negociação real, é sócio e não fornecedor. E ao mesmo tempo carrega uma fragilidade estrutural que a parceria precisa levar em conta.

10O recorte Brasil: adiantado no consumo, com uma armadilha de leitura

O Brasil é um dos maiores mercados de influência do mundo, e um dos mais reveladores da distância entre parecer influente e ser decisivo.

O tamanho impressiona. Segundo a Influency.me, o país tinha cerca de 2 milhões de influenciadores em março de 2025, alta de 67% sobre o ano anterior. O mercado de creator economy brasileiro foi estimado em US$ 5,47 bilhões em 2025, com projeção de US$ 33,5 bilhões até 2034, no relatório da Noodle. Vale uma nota de método, porque ela é editorialmente importante: a Nielsen estimou algo como 500 mil pessoas atuando como influenciadores no Brasil, número muito abaixo dos 2 milhões. Não é contradição, é definição. A Influency.me conta todo perfil com engajamento relevante, a Nielsen restringe a quem atua de forma profissional. Sempre que citar o tamanho do exército de creators, é preciso dizer qual régua está usando.

O consumo é intenso. Pela pesquisa da Opinion Box com a Influency.me, de 2025, com dois mil respondentes, 7 em cada 10 brasileiros acompanham ao menos um influenciador, índice que sobe para 91% entre os de 16 a 29 anos e para 82% entre as mulheres, e 69% já compraram um produto ou serviço recomendado por influenciador. A margem de erro declarada é de 2,2 pontos percentuais.

E aqui entra a armadilha de leitura, que é o achado mais importante desta pesquisa para o mercado brasileiro. A mesma cultura que compra por recomendação diz que quase não compra por ordem direta. Pela CNDL e SPC Brasil, em pesquisa divulgada em 2026, apenas 5% dos consumidores afirmam comprar por recomendação direta de influenciador, enquanto 99% pesquisam produtos nas redes antes de comprar, priorizando preço, avaliações de outros consumidores e fotos autênticas.

Como conciliar 69% e 5%? A resposta desfaz o falso paradoxo. A influência brasileira age na consideração, não na ordem de compra. O creator planta a semente, cria o desejo, coloca a marca no radar. Mas a decisão final é tomada num processo social mais amplo, em que a avaliação de outros consumidores comuns pesa mais que a palavra de qualquer influenciador. Quem lê o 69% e monta a estratégia esperando que o influenciador feche a venda vai se frustrar. Quem entende que o papel dele é abrir a consideração, e que o fechamento acontece na prova social da comunidade, acerta a mão.

O paradoxo brasileiro da influência: 69% já compraram um produto recomendado por influenciador, mas só 5% compram por recomendação direta, porque a influência age na consideração e não na ordem de compra Fontes: Opinion Box com Influency.me, 2025 (n=2.000); CNDL e SPC Brasil com Offerwise, 2026.

Um caso brasileiro ilustra o funil de comunidade na prática. O canal de educação financeira Me Poupe!, de Nathalia Arcuri, migrou parte da relação com sua audiência de milhões para espaços fechados, com uma comunidade hospedada em plataforma dedicada e um serviço de assinatura de conteúdo. Em 2024, mobilizou a audiência e arrecadou cerca de R$ 1 milhão para uma ONG durante as enchentes no Rio Grande do Sul, uma demonstração concreta de conversão via pertencimento, ainda que a marca não divulgue publicamente os números de membros e receita da comunidade.

Painel do Brasil na economia de influência: cerca de 2 milhões de creators, mercado de US$ 5,47 bilhões, 7 em cada 10 seguem um influenciador e 91% entre os jovens de 16 a 29 anos Fontes: Influency.me, 2025; relatório Noodle; Opinion Box com Influency.me, 2025.

11Cenários até 2028 e o contraponto honesto

Projetar é arriscado, mas as forças em jogo permitem descrever alguns desdobramentos plausíveis. Até 2028, é provável que o orçamento de influência continue migrando de mega para micro e nano, que as marcas passem a tratar Discord, WhatsApp e Circle como camada de retenção e não só de descoberta, e que a assinatura direta amadureça como ativo de negócio do creator, reduzindo sua dependência de publicidade. O Brasil deve seguir entre os maiores mercados, puxado por creators empreendedores e por nano influenciadores.

Mas uma pesquisa que só confirma a própria tese é panfleto. Vale olhar para o que pode dar errado, e há razões sérias de dúvida.

A economia de assinatura pode ter teto. Há análises independentes apontando desaceleração no crescimento do Substack, o que sugere um limite de disposição a pagar por conteúdo de creator. A tribo que assina pode ser menor do que o otimismo sugere.

A influência direta pode ser menor do que se vende. Se apenas 5% dos brasileiros compram por recomendação direta, é possível que a indústria esteja superestimando o poder de conversão dos creators, e que boa parte do orçamento esteja pagando por consideração que também aconteceria por outros meios. É um risco de atribuição que a marca séria precisa encarar.

A fragmentação tem custo. Orquestrar dezenas de micros e várias comunidades entrega engajamento, mas dificulta alcance previsível e mensuração, e consome operação. O ROI teórico do micro pode ser corroído pelo custo de gerir muitos deles. Escala e intimidade puxam em direções opostas, e não há solução mágica para essa tensão.

E há o risco de terra alugada. Comunidade em Discord, WhatsApp ou Telegram é construída sobre uma plataforma de terceiros, o chamado dark social, sujeita a mudanças de regra, moderação e até restrições regulatórias. A marca que muda toda a sua lealdade para um espaço que não controla troca uma dependência, a das redes abertas, por outra, talvez mais frágil.

Nenhum desses riscos anula a tendência. Mas todos exigem que a migração para o pequeno e o fechado seja feita com estratégia de propriedade e mensuração, não como fuga romântica do grande.

12O que a sua marca precisa fazer agora

A transição do público para a tribo recompensa quem reorganiza o investimento com método. A rito.ag resume a resposta em cinco movimentos.

Pare de comprar alcance esperando lealdade. Separe os objetivos por camada do funil de comunidade. Grande influenciador para reconhecimento, micro e nano para consideração, comunidade fechada para pertencimento e recorrência. Cobrar conversão do topo e alcance do fundo é o erro que desperdiça orçamento nos dois lados.

Trate os micro e nano como um portfólio, não como um contrato. O valor deles está no volume e na diversidade, não em uma aposta única. Isso exige capacidade operacional de gerir muitos relacionamentos, que é um investimento real e precisa ser orçado como tal.

Construa comunidade própria antes de depender da alugada. Use Discord, WhatsApp e afins para nutrir a tribo, mas capture o vínculo em ativos que a marca controla, como base de contatos, dados de primeira parte e canais próprios. Pertencimento em terra alugada é valioso e arriscado ao mesmo tempo.

Meça o que a comunidade realmente entrega. Troque a obsessão por alcance por métricas de profundidade: participação, retenção, valor ao longo do tempo, defesa espontânea. E encare com honestidade a diferença entre influência na consideração e conversão direta, para não pagar por uma esperando a outra.

Ganhe o direito de estar na tribo. Comunidade não se invade, se merece. A marca que entra numa comunidade fechada com postura de anunciante é expulsa pelo próprio ambiente. A que entra oferecendo utilidade, acesso e voz constrói uma lealdade que nenhuma mídia paga compra.

13A pergunta que fica

Durante vinte anos, a pergunta do marketing de influência foi de tamanho: quantos seguidores esse creator tem? A pergunta de 2026 é de densidade: que tipo de vínculo esse creator tem, e com quem?

O que está acontecendo não é o fim da influência, é a sua redistribuição. Ela está saindo das mãos de poucos com muita audiência e indo para as mãos de muitos com audiências pequenas e leais, e para dentro de espaços fechados onde a relação é contínua em vez de episódica. O público, aquela massa anônima que assistia, está se dissolvendo. A tribo, menor e mais exigente, está tomando o lugar.

Para a marca, isso é ao mesmo tempo mais trabalhoso e mais valioso. Mais trabalhoso porque não dá para comprar pertencimento com um cheque. Mais valioso porque, uma vez construído, o pertencimento não se cancela no próximo escândalo nem se compra pelo concorrente com um lance maior.

A pergunta que a sua marca precisa responder não é quantos influenciadores ela vai contratar no próximo trimestre. É se, quando a sua categoria for discutida dentro de uma comunidade fechada, longe dos seus anúncios e do seu controle, vai existir alguém ali dentro que defende o seu nome sem que você tenha pedido. Porque é essa voz, e não a do maior influenciador do país, que decide a compra hoje.


Esta pesquisa foi produzida pela rito.ag com base no cruzamento de projeções de mercado e dados de plataforma (Goldman Sachs, Statista, Harris Poll para o Credit Karma, Discord, Substack, Telegram, Patreon, Kajabi), pesquisa de consumo brasileira (Opinion Box com Influency.me, CNDL e SPC Brasil, relatório Noodle) e revisão de literatura acadêmica em periódicos de marketing e comunicação e em arXiv sobre relações parassociais, eficácia de micro e macro influenciadores, senso de comunidade virtual e social commerce.

Transparência da pesquisa

Metodologia

Cruzamento de projeções de mercado e dados de plataforma (Goldman Sachs, Statista, Harris Poll para o Credit Karma, dados oficiais de Discord, Substack, Telegram, Patreon e Kajabi), pesquisa de consumo brasileira (Opinion Box com Influency.me, CNDL e SPC Brasil, relatório Noodle) e revisão de literatura acadêmica em periódicos (Journal of Business Research, Psychology & Marketing, Frontiers in Communication, Social Media + Society, SAGE Open) e em arXiv (cs.SI e cs.HC) sobre relações parassociais, eficácia de micro e macro influenciadores, senso de comunidade virtual e social commerce. Cada dado central foi confirmado em segunda fonte, com a divergência explicitada quando existia. Números-âncora de 2023 estão datados no texto.

Amostra
Análise de fontes primárias e literatura acadêmica
Abrangência
Global, com foco no Brasil
Atualizado em
26/07/2026
Rastreabilidade

Fontes e referências

  1. Goldman Sachs, The creator economy could approach half-a-trillion dollars by 2027 (2023)
  2. Statista via CartaCapital, Marketing de influência triplica desde 2020 e deve alcançar US$ 33 bilhões em 2025
  3. Harris Poll para o Intuit Credit Karma via Fast Company, De-influencing sways 69% of US social media users (2024)
  4. eMarketer, De-influencing is still influencing
  5. Backlinko, Substack users and revenue statistics (2025)
  6. Inc., How Patreon and Kajabi helped creators earn a combined US$ 20 billion (2025)
  7. Fortune, MrBeast makes more money from chocolate than videos (2025)
  8. Opinion Box, Marketing de influência no Brasil (pesquisa com Influency.me, 2025)
  9. Terra, Sete em cada dez brasileiros seguem influenciadores digitais (Opinion Box e Influency.me, 2025)
  10. CNDL e SPC Brasil com Offerwise, Apenas 5% compram por recomendação direta (2026)
  11. Noodle via Mundo do Marketing, O horizonte da creator economy no Brasil
  12. Conde e Casais (2023), Micro, macro and mega-influencers on Instagram, Journal of Business Research, DOI 10.1016/j.jbusres.2023.113708
  13. Khalil et al. (2025), The digital de-influencing wave, Frontiers in Communication, DOI 10.3389/fcomm.2025.1600657
  14. Duffy et al. (2021), The Nested Precarities of Creative Labor on Social Media, Social Media + Society, DOI 10.1177/20563051211021368
  15. Hwang e Foote (2021), Why do People Participate in Small Online Communities?, arXiv:2108.04282
  16. Trinkenreich et al. (2023), Do I Belong? Modeling Sense of Virtual Community, ICSE, arXiv:2301.06437
  17. Wang e Shahzad (2024), Deciphering Social Commerce, SAGE Open, DOI 10.1177/21582440241257591
Em poucas palavras

Perguntas frequentes

O que é a creator economy?

É o conjunto de mercados movido por criadores de conteúdo independentes: publicidade paga por marcas, assinaturas, produtos próprios e monetização de plataforma. O Goldman Sachs estimou em 2023 que ela pode se aproximar de US$ 480 bilhões até 2027, partindo de cerca de US$ 250 bilhões.

Por que os microinfluenciadores estão ganhando espaço?

Porque entregam de 3 a 4 vezes mais engajamento que os grandes e são percebidos como mais autênticos e próximos. A persuasão não vem do tamanho da audiência, e sim da relação parassocial e da confiança, que são mais densas em bases menores, como mostra a literatura acadêmica de marketing.

O que é de-influencing?

É o movimento em que creators desencorajam a compra de produtos, em vez de promovê-los. Segundo a Harris Poll para o Credit Karma (2024), 69% dos usuários dos Estados Unidos já deixaram de comprar algo por causa disso. É sintoma de um novo contrato de confiança, em que parecer não ter motivação comercial aumenta a credibilidade.

Por que as marcas estão indo para comunidades fechadas?

Porque a lealdade e a conversão se aprofundam mais em espaços fechados como Discord, WhatsApp, Telegram e Substack do que na vitrine aberta das redes. São ambientes de pertencimento, onde a relação é contínua. O risco é a dependência de plataformas de terceiros, o chamado dark social, que a marca não controla.

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