A publicidade brasileira ainda opera com um mapa demográfico que deixou de existir. O público que mais cresce, que tem a renda mais estável e que menos lealdade de marca carrega é exatamente o que as marcas menos olham. Metade desse mercado está, literalmente, sem dono: 52% dos consumidores 60+ não são fiéis a marca nenhuma.
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Principais achados

  • O Censo 2022 contou 22.169.101 brasileiros com 65 anos ou mais (10,9% da população), crescimento de 57,4% sobre 2010; as projeções do IBGE (revisão 2024) indicam que os 60+ passarão de 15,6% da população em 2023 para 37,8% em 2070.
  • As pessoas 50+ geraram US$ 45 trilhões em 2020, o equivalente a 34% do PIB global, e devem responder por US$ 118 trilhões (39%) em 2050, segundo o Global Longevity Economy Outlook da AARP com a Economist Impact.
  • Apenas 4% das pessoas retratadas em mais de 126 mil anúncios analisados pela CreativeX têm 60+, e menos de 1% aparece em papel de liderança; no Brasil, mais de 70% dos 50+ dizem se sentir invisíveis para a publicidade (AlmapBBDO, 2023).
  • 52% dos brasileiros 60+ não são fiéis a nenhuma marca, número que sobe a 74% entre os 75+ (Tsunami60+, 2018): o maior mercado em crescimento do país está aberto para quem falar com ele primeiro.
  • O idadismo tem custo mensurável: 1 em cada 2 pessoas no mundo tem atitudes idadistas (OMS, 2021), o fenômeno custa US$ 63 bilhões por ano só ao sistema de saúde americano, e a autopercepção positiva do envelhecimento está associada a 7,5 anos a mais de vida (Levy et al., 2002).

01O consumidor de trilhões que a propaganda decidiu não ver

Em 2003, a antropóloga Guita Grin Debert, da Unicamp, procurou um renomado especialista em mídia para discutir a imagem do velho na propaganda brasileira. A resposta que recebeu virou registro acadêmico, publicado na revista Cadernos Pagu: "Não é possível. Não há velhos na publicidade". O especialista não estava defendendo a ausência. Estava constatando que o objeto de pesquisa simplesmente não existia.

Vinte e três anos depois, o objeto continua raro, mas agora ele tem medição global. Um estudo da CreativeX, empresa de análise de criativos, examinou mais de 126 mil anúncios de grandes anunciantes, representando US$ 124 milhões em investimento de mídia: apenas 4% das pessoas retratadas tinham 60 anos ou mais, embora o grupo seja 16% da população mundial e responda por cerca de um quarto do poder de gasto. Menos de 1% dessas personagens aparecia em papel profissional ou de liderança; cerca de 65% estavam em cenas domésticas ou familiares. No Brasil, a pesquisa A Revolução da Longevidade, feita pela AlmapBBDO com a QualiBest e o Favela Diz em 2023, encontrou o outro lado do mesmo espelho: mais de 70% das pessoas 50+ disseram se sentir invisíveis para a publicidade, e, quando aparecem, retratadas de forma equivocada.

Enquanto isso, do lado da demografia e da economia, os números correm na direção contrária. O Censo 2022 contou 22.169.101 brasileiros com 65 anos ou mais, 10,9% da população, um salto de 57,4% em 12 anos. No mundo, as pessoas 50+ geraram US$ 45 trilhões em 2020, o equivalente a 34% do PIB global, segundo o Global Longevity Economy Outlook, estudo da AARP conduzido pela Economist Impact em 76 economias. E no Brasil, o consumo do público maduro é estimado entre R$ 1,6 trilhão e R$ 2 trilhões por ano, a depender da fonte e do recorte, como esta pesquisa detalhará com as devidas ressalvas.

A distância entre esses dois conjuntos de números é o tema desta pesquisa. Não se trata de uma pauta de responsabilidade social, embora a dimensão ética exista e a OMS a documente. Trata-se do maior erro de alocação de atenção do marketing brasileiro: o público que mais cresce, que tem a renda mais previsível do país e que declara abertamente não ter marca preferida está recebendo a menor fração da verba, do elenco e da inteligência criativa. E há um dado que transforma essa negligência em oportunidade concreta para quem se mover primeiro: 52% dos consumidores brasileiros 60+ não são fiéis a nenhuma marca, segundo o estudo Tsunami60+. Entre os 75+, o número chega a 74%. Metade do mercado que mais cresce no país está, literalmente, sem dono.

02Como chegamos aqui: a invenção do consumidor descartável aos 49

A invisibilidade do consumidor maduro não é um acidente. Ela foi construída, tem data de nascimento aproximada e endereço: Nova York, início dos anos 1960.

Na época, a rede de TV americana ABC ocupava um distante terceiro lugar atrás de CBS e NBC, e não tinha como vencer no jogo da audiência total. A saída foi mudar a régua do jogo. A emissora convenceu o mercado, com apoio da Nielsen, de que o que importava não era quantas pessoas assistiam, mas quais: espectadores jovens, supostamente mais abertos a experimentar produtos e menos fiéis a marcas estabelecidas. Nascia o "demo" 18-49, a faixa etária que virou moeda da televisão americana e, por contágio, da publicidade mundial. A lógica foi refinada ao longo das décadas de 1960 e 1970 e nunca mais saiu do sistema operacional do setor: acima dos 49 anos, o consumidor deixava de contar para a tabela de preços da mídia.

Repare no que essa régua pressupõe: que a pessoa acima de 50 anos já formou todas as suas preferências, não muda de marca e, portanto, não vale o investimento de persuasão. Era uma tese de negócios datada, construída para resolver o problema comercial de uma emissora específica em um país que, naquele momento, era demograficamente jovem. O problema é que a tese sobreviveu ao contexto. Quando a Debert analisou o corpus da propaganda brasileira dos anos 1990, encontrou exatamente essa herança: o velho ausente ou reduzido a caricatura, e um mercado que via o envelhecimento como fracasso de consumo. O nome acadêmico que ela deu ao fenômeno é preciso: "reprivatização do envelhecimento", a transformação de uma etapa natural da vida em problema individual de quem não soube se manter jovem.

Meio século depois do 18-49, os dois pilares da tese ruíram. O primeiro, demográfico: o centro de gravidade da população saiu da faixa jovem, e esta pesquisa mostrará a velocidade brutal com que isso aconteceu no Brasil. O segundo, comportamental: a premissa de que o consumidor maduro não muda de marca foi desmentida pelo próprio mercado, e os 52% sem lealdade do Tsunami60+ são a prova mais direta. O que não ruiu foi o hábito. A publicidade continua comprando mídia, montando elenco e escrevendo roteiro com a régua de 1965. Há inclusive uma explicação estrutural para a inércia, e ela está dentro das próprias agências: segundo o Observatório da Diversidade da Propaganda, citado pelo Meio & Mensagem, apenas 6% dos profissionais das agências brasileiras têm mais de 50 anos. O setor que decide quem aparece na tela é um dos mais etariamente homogêneos do país. Ninguém desenha bem um consumidor que não conhece.

03O Brasil que o Censo revelou: envelhecimento em velocidade recorde

Os números demográficos brasileiros dos últimos três anos formam o alicerce factual desta pesquisa, e vale apresentá-los na sequência em que o IBGE os publicou, porque cada divulgação apertou o mesmo parafuso.

Primeiro, o retrato. O Censo 2022, divulgado em outubro de 2023, contou 22.169.101 pessoas com 65 anos ou mais, 10,9% da população, contra 14.081.477 (7,4%) em 2010: crescimento de 57,4% em 12 anos, o mais rápido da série. No mesmo intervalo, as crianças de 0 a 14 anos caíram de 24,1% para 19,8% da população. O índice de envelhecimento saltou de 30,7 para 55,2 idosos por 100 crianças. A pirâmide etária brasileira, aquela do livro escolar com base larga, deixou de existir.

Depois, o filme. As Projeções da População do IBGE, revisadas em agosto de 2024, desenharam a trajetória: a população brasileira atinge o pico de 220,4 milhões em 2041 e passa a encolher. As pessoas com 60 anos ou mais, que eram 8,7% da população em 2000 e 15,6% em 2023, chegarão a 37,8% em 2070. A taxa de fecundidade, que era de 2,32 filhos por mulher em 2000, caiu a 1,57 em 2023, bem abaixo do nível de reposição. A idade média da população, 35,5 anos em 2023, alcançará 48,4 anos em 2070. E a Tábua de Mortalidade de 2024, divulgada em novembro de 2025, completou o quadro pelo lado individual: a expectativa de vida ao nascer atingiu 76,6 anos, a maior da série histórica iniciada em 1940, e quem chega aos 60 anos vive, em média, mais 22,6 anos.

Envelhecimento do Brasil em três atos: pessoas com 60 anos ou mais eram 8,7% da população em 2000, 15,6% em 2023 e serão 37,8% em 2070, enquanto a população total atinge o pico de 220,4 milhões em 2041 e a expectativa de vida chegou a 76,6 anos Fonte: IBGE, Censo 2022, Projeções da População (revisão 2024) e Tábua de Mortalidade 2024.

O dado que falta nesse resumo, e que muda a conversa para qualquer estrategista, é a velocidade comparada. Segundo levantamento da Fundação Dom Cabral citado pelo Meio & Mensagem, a França levou 145 anos para sua população idosa ir de 10% para 20% do total. O Brasil fará o mesmo percurso entre 2011 e 2030: 19 anos. A Europa envelheceu com tempo para adaptar cidades, previdência, saúde e, sim, cultura de consumo. O Brasil está fazendo a mesma transição em uma única geração, e envelhecendo antes de enriquecer. Isso significa que os erros de leitura demográfica que lá se corrigiram ao longo de décadas aqui cobram o preço em anos.

Para o mercado, a consequência prática é aritmética: não existe estratégia de crescimento no Brasil das próximas três décadas que não passe pelo consumidor maduro, porque é o único segmento etário em expansão. Uma marca que hoje define seu público-alvo como "25 a 45 anos" está mirando uma fatia da população que encolhe a cada trimestre, enquanto trata como residual a única que cresce. Em qualquer outra dimensão do planejamento, chamaríamos isso de erro de modelo. Em idade, o mercado ainda chama de "foco".

04A economia da longevidade é a maior história de consumo do século

Se a demografia dá o volume, a economia dá o valor, e os números globais são de uma escala que o marketing ainda não internalizou.

O estudo de referência é o Global Longevity Economy Outlook, produzido pela AARP, a maior organização de pessoas 50+ do mundo, com análise da Economist Impact, cobrindo 76 economias que respondem por 95% do PIB global. Os resultados, publicados em 2023 com dados-base de 2020: as pessoas 50+, então 24% da população mundial, geraram US$ 45 trilhões em atividade econômica, o equivalente a 34% do PIB global. O consumo direto do grupo somou US$ 35 trilhões, metade de todo o consumo do planeta. A projeção para 2050: US$ 118 trilhões, ou 39% do PIB mundial. Nenhuma outra "megatendência" do marketing contemporâneo, nem creator economy, nem esportes, nem games, opera nessa ordem de grandeza. Estamos falando do maior bloco econômico do mundo, maior que o PIB de qualquer país.

A edição americana mais recente do estudo, publicada em junho de 2026, mostra a dinâmica em um mercado maduro: os 50+ geraram US$ 12,5 trilhões em 2024, ou 43% do PIB dos Estados Unidos, acima dos US$ 8,3 trilhões (40%) de 2018. O consumo do grupo foi de US$ 10,7 trilhões, mais da metade do consumo do país, e a atividade econômica ligada a ele sustentou 98 milhões de empregos, 46% do total americano. A trajetória importa tanto quanto o nível: a participação dos 50+ no PIB americano subiu três pontos percentuais em seis anos. A economia da longevidade não é um nicho estável, é uma participação em expansão dentro do bolo total.

A economia da longevidade em escala: pessoas 50+ geraram US$ 45 trilhões (34% do PIB global) em 2020, com projeção de US$ 118 trilhões (39%) em 2050; nos Estados Unidos, o grupo respondeu por 43% do PIB em 2024, com consumo de US$ 10,7 trilhões Fontes: AARP com Economist Impact, Global Longevity Economy Outlook (dados de 2020) e Longevity Economy Outlook 2026 (dados americanos de 2024).

Duas ressalvas de leitura, porque esta pesquisa se compromete a fazê-las. Primeira: esses estudos medem a atividade econômica associada ao grupo (consumo, trabalho, impostos, cadeias de valor), não um "mercado endereçável" que uma marca captura inteiro; o número serve para dimensionar relevância, não para projetar receita. Segunda: a AARP é uma organização de defesa dos 50+, com interesse legítimo em dimensionar a importância do grupo. O contrapeso é que a análise é da Economist Impact, a metodologia é publicada, e os dados demográficos que sustentam a tendência vêm de fontes oficiais independentes, como a OMS, que projeta 1,4 bilhão de pessoas 60+ no mundo em 2030 e 2,1 bilhões em 2050, com 80% delas vivendo em países de renda baixa e média, categoria que inclui o Brasil.

Esse último dado da OMS merece a ênfase que raramente recebe: o envelhecimento deixou de ser fenômeno de país rico. A imagem mental do "consumidor sênior" como aposentado europeu de alto patrimônio está tão desatualizada quanto o demo 18-49. As próximas décadas da economia da longevidade serão escritas em países como o Brasil, com renda média, sistemas de proteção social sob pressão e mercados de consumo de massa. Quem aprender a servir o consumidor maduro brasileiro estará aprendendo o padrão do mercado global que vem, não a exceção.

05O prateado brasileiro: renda estável, consumo real, bolso hipotecado

Quanto vale, afinal, o consumidor maduro brasileiro? A resposta honesta começa admitindo que os números disponíveis divergem, e explicando por quê.

A referência mais citada é o Tsunami60+, estudo da Pipe.Social com a Hype60+ realizado em 2018: pesquisa quantitativa com 2.242 respondentes 55+ de todas as regiões e classes, mais etnografia com cerca de 100 pessoas 60+ em cinco capitais. Sua estimativa: os consumidores maduros respondiam por quase 20% do consumo nacional, cerca de R$ 1,6 trilhão por ano. Uma estimativa mais recente, da consultoria Data8 citada pelo Meio & Mensagem, fala em R$ 2 trilhões movimentados pela economia prateada brasileira, com recorte 50+. Os dois números não são comparáveis entre si (anos, recortes etários e métodos diferentes), e esta pesquisa os cita sempre com fonte e data. O que ambos estabelecem, com folga, é a ordem de grandeza: o consumo maduro brasileiro é um mercado de trilhões, na mesma escala do agronegócio na economia nacional.

A característica mais valiosa dessa renda, do ponto de vista de uma marca, não é o volume, é a previsibilidade. A base da renda 60+ brasileira é a previdência, e isso tem dois lados que precisam ser ditos juntos. O lado da força: é a renda mais estável do país, imune a desemprego e a ciclo econômico, depositada todo mês. A Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, divulgada em dezembro de 2025, dimensiona o que ela significa: sem aposentadorias e pensões, a pobreza entre os 60+ saltaria de 8,3% para cerca de 52%, e a extrema pobreza, de 1,9% para cerca de 35%. O idoso brasileiro médio não é rico, mas é o integrante mais financeiramente previsível da família, e frequentemente o que sustenta as outras gerações dentro de casa.

O lado do limite: parte desse fluxo já está comprometida. O crédito consignado do INSS soma mais de 16 milhões de contratos ativos, segundo dados do próprio instituto divulgados pela imprensa em 2025, com margem consignável de 45% do benefício e prazos que chegaram a 96 meses. Uma fração relevante do poder de compra prateado está hipotecada ao crédito antes de chegar ao consumo. Para as marcas, isso desenha um consumidor específico: renda garantida, orçamento apertado, alta sensibilidade a valor percebido e uma relação com crédito que mistura acesso e armadilha. Quem vender aspiração pura para esse público vai errar o alvo; quem vender valor concreto, durabilidade e confiança fala a língua do orçamento dele.

Há ainda uma ressalva de representatividade que o próprio mercado raramente faz sobre seus estudos favoritos: a amostra quantitativa do Tsunami60+ era 75% branca e 52% com ensino superior ou pós-graduação, um perfil muito acima da média real do brasileiro 60+. Os retratos disponíveis da "economia prateada" descrevem melhor o topo da pirâmide etária do que sua base. Isso não invalida os números agregados, mas avisa: o consumidor maduro brasileiro é profundamente heterogêneo, e tratá-lo como bloco único é repetir, com sinal trocado, o erro do 18-49.

06O 60+ digital: o maior gap e a maior fronteira de crescimento

A objeção mais comum ao investimento no público maduro é digital: "esse público não está nos nossos canais". Os dados de 2024 mostram que a objeção está meio certa e meio errada, e que a parte errada é a que cresce.

A fonte primária brasileira é a TIC Domicílios, do Cetic.br/CGI.br, a medição oficial de uso de tecnologia no país. Na edição 2024: 63% dos brasileiros com 60 anos ou mais eram usuários de internet pelo indicador ampliado, contra 89% da população geral e 98% dos jovens de 16 a 24. O gap existe e é o maior entre todas as faixas etárias. Mas observe o que os 63% significam em volume: são cerca de 20 milhões de pessoas maduras online, mais que a população da maioria dos estados brasileiros. E entre os 60+ que compram online, o comportamento é sofisticado: 80% usam marketplaces, 47% aplicativos de lojas, 31% sites, segundo o indicador H9 da mesma pesquisa. O consumidor maduro conectado não está "aprendendo a internet": ele compara preço em marketplace como qualquer outro. A comparação com a população geral torna isso explícito: entre todos os brasileiros que compram online, 90% usam marketplaces, 65% aplicativos de lojas e 35% sites. Ou seja, no canal dominante do e-commerce nacional, a distância entre o comprador 60+ e o comprador médio é de apenas dez pontos percentuais. O gap etário brasileiro está no acesso à internet, não no comportamento de quem já a acessa. Uma vez conectado, o consumidor maduro converge rapidamente para o padrão geral de compra, o que derruba a última linha de defesa do planejamento que o exclui dos canais digitais.

O estudo da AlmapBBDO adiciona a camada de frequência: 70% dos 50+ acessam a internet todos os dias, 64% estão diariamente nas redes sociais e 43% compraram online no último ano. A imagem do idoso analógico, sustentáculo de tanto planejamento de mídia preguiçoso, descreve uma fração decrescente do grupo.

O 60+ brasileiro no digital em 2024: 63% usam internet (contra 89% da população geral), 80% dos que compram online usam marketplaces, 70% dos 50+ acessam a internet diariamente, mas 48,2% de todos os desconectados do país têm 60 anos ou mais Fontes: Cetic.br/CGI.br, TIC Domicílios 2024 (indicadores C2A e H9); AlmapBBDO com QualiBest e Favela Diz, 2023.

O outro lado do dado precisa do mesmo destaque: 37% dos 60+ seguem desconectados, e eles representam 48,2% de todos os brasileiros fora da internet. Além disso, 61% dos 60+ têm o que o Cetic.br chama de baixa "conectividade significativa" (acesso de qualidade, dispositivos adequados, habilidades de uso), contra 33% da população geral. A leitura da rito.ag para estratégia de canal é direta: o público maduro brasileiro é hoje o único grande segmento genuinamente multicanal do país. Uma parte dele decide em marketplace e paga por Pix; outra parte decide no balcão, pela vendedora que a conhece pelo nome, e paga no carnê. As marcas que escolherem um só lado dessa realidade perderão o outro, e as que entenderem a ponte entre os dois (o filho que pesquisa online para a mãe que compra na loja, a neta que instala o aplicativo para o avô) capturarão o fluxo inteiro da decisão familiar.

07A lacuna publicitária, medida anúncio por anúncio

Se a demografia cresce e a economia é de trilhões, resta medir com precisão o tamanho da negligência. Os estudos convergem de forma constrangedora.

No plano global, o já citado estudo da CreativeX de 2023 analisou mais de 126 mil anúncios com inteligência artificial de reconhecimento de imagem: pessoas 60+ eram 4% dos personagens, menos de 1% apareciam em papel profissional ou de liderança, cerca de 65% estavam confinadas a cenas domésticas e familiares, e as mulheres 60+ eram menos de 2% dos elencos. O grupo que é 16% da população mundial e um quarto do poder de gasto aparece, quando aparece, cuidando de neto.

Nos Estados Unidos, a AARP mantém desde 2018 a medição mais longa do fenômeno. O ponto de partida, publicado em 2019: adultos 50+ eram 46% da população adulta americana, mas apenas 15% das imagens com adultos usadas em mídia e marketing online; embora fossem um terço da força de trabalho, só 13% das imagens os mostravam trabalhando. A atualização de setembro de 2024, sobre mais de mil imagens e 500 vídeos, encontrou progresso seletivo: a representação com tecnologia saltou de 4% para 33% das imagens, o enquadramento negativo caiu de 28% para 10%, mas o retrato no trabalho ficou praticamente parado, de 13% para 14%. A publicidade aprendeu que o velho usa smartphone; ainda não aceitou que ele trabalha, lidera e empreende.

No Brasil, os números disponíveis fecham o circuito pela percepção e pela estrutura. A percepção: mais de 70% dos 50+ se sentem invisíveis para a publicidade (AlmapBBDO, 2023), e na mesma pesquisa 64% dos entrevistados das classes ABC e 77% das classes C e D não conseguiram citar marcas com as quais se conectam. A estrutura: os já mencionados 6% de profissionais 50+ nas agências. E o dado de verba que circula no setor global, citado pelo Stanford Center on Longevity a partir de AARP e Brookings, estima que apenas 5% a 10% dos orçamentos de marketing miram consumidores 50+. Esta pesquisa registra a ressalva: esse último número é consenso setorial repetido em cadeia, sem uma medição primária única localizável, e deve ser lido como ordem de grandeza. Mas mesmo que o valor real fosse o dobro do teto, seguiria absurdo diante de um grupo que responde por metade do consumo mundial.

A tabela abaixo condensa a assimetria:

Dimensão Peso real do 50+/60+ Presença na publicidade Fonte e ano
População mundial (60+) 16% 4% das pessoas em anúncios CreativeX, 2023
Papéis de liderança em anúncios 50+ são cerca de 1/3 da força de trabalho menos de 1% dos personagens 60+ CreativeX, 2023
População adulta dos EUA (50+) 46% 15% das imagens de marketing AARP, 2019
Consumo global (50+) 50% (US$ 35 trilhões) 5% a 10% dos budgets (estimativa setorial) AARP/Economist Impact, 2020; Stanford/AARP
Brasil: percepção dos 50+ 22,2 milhões de 65+ no Censo 2022 mais de 70% se sentem invisíveis IBGE, 2022; AlmapBBDO, 2023
Equipes das agências brasileiras os 60+ já eram 15,6% da população em 2023 6% dos profissionais têm 50+ IBGE, 2024; Observatório da Diversidade via M&M

Cada linha dessa tabela é uma decisão de mercado tomada no automático. Somadas, elas formam o que esta pesquisa considera a maior distorção sistemática entre valor econômico e atenção de marketing hoje em operação no Brasil.

08Idadismo custa caro, e a conta é literal

Seria possível ler a lacuna publicitária como mera miopia comercial. A literatura de saúde pública mostra que ela é parte de algo maior, com nome técnico e custo contabilizado.

Em março de 2021, a OMS publicou o Global Report on Ageism, o primeiro relatório global sobre discriminação por idade. O dado de prevalência veio de um survey com 83.034 pessoas em 57 países: uma em cada duas pessoas no mundo carrega atitudes idadistas contra pessoas mais velhas. Não é um desvio de minoria, é o preconceito da maioria, e o relatório o descreve como o mais normalizado e menos combatido dos preconceitos, presente em leis, instituições, algoritmos e, explicitamente, na mídia e na publicidade. Um comentário no The Lancet assinado por autores do relatório posicionou o idadismo como determinante social de saúde, na mesma categoria analítica de renda e escolaridade.

O custo é mensurável em três moedas. Em dinheiro: só nos Estados Unidos, o idadismo custa US$ 63 bilhões por ano ao sistema de saúde, um de cada sete dólares gastos nas oito condições mais caras, segundo estudo citado pelo relatório da OMS. Em saúde mental: o relatório estima 6,3 milhões de casos de depressão no mundo atribuíveis ao idadismo. E em anos de vida: o estudo mais impressionante da área, conduzido por Becca Levy, da Universidade Yale, e colegas, publicado no Journal of Personality and Social Psychology em 2002, acompanhou 660 pessoas em Ohio por 23 anos e encontrou que quem tinha autopercepção positiva do próprio envelhecimento viveu, em média, 7,5 anos a mais, vantagem que persistiu após controlar idade, gênero, condição socioeconômica, solidão e saúde funcional. É um estudo de coorte, associação e não experimento, como a boa leitura exige registrar. Mas 7,5 anos é mais do que os ganhos atribuídos a parar de fumar ou controlar o colesterol, e a variável em questão é uma crença sobre a velhice, do tipo que a cultura, e a publicidade que a alimenta, constrói todos os dias.

Aqui a pesquisa cruza sua linha mais importante: a representação idadista não é só um erro comercial que deixa dinheiro na mesa. É um insumo de saúde pública. Quando 65% dos personagens 60+ dos anúncios aparecem em cenas domésticas e menos de 1% em liderança, a publicidade está fabricando, em escala industrial, exatamente as autopercepções negativas que a literatura associa a vidas mais curtas. O Brasil reconheceu institucionalmente o peso das palavras nesse campo: em julho de 2022, a Lei 14.423 rebatizou o Estatuto do Idoso, de 2003, para Estatuto da Pessoa Idosa, atualizando toda a legislação federal. O gesto parece semântico, e é: semântica é o negócio da comunicação. Se a lei entendeu que a linguagem constrói a velhice, o mercado que vive de linguagem não tem álibi.

09O paradoxo da lealdade: metade do mercado está sem dono

De todos os números desta pesquisa, o que deveria tirar o sono de qualquer diretor de marketing é o menos citado: 52% dos consumidores brasileiros 60+ não são fiéis a nenhuma marca, segundo o Tsunami60+. Na faixa 75+, a infidelidade sobe para 74%. E a pesquisa da AlmapBBDO ecoa o mesmo vazio por outro ângulo: 64% dos entrevistados das classes ABC e 77% das classes C e D não conseguiram citar marcas com as quais se conectam.

Esses números desmontam a segunda metade da tese do 18-49. A primeira metade dizia que o consumidor maduro não vale a pena porque já formou suas preferências; os dados dizem que ele não formou preferência nenhuma, ou as abandonou. A leitura da rito.ag: isso não descreve um público teimoso, descreve um público destratado. Décadas de invisibilidade e caricatura não geraram lealdade a ninguém, geraram um mercado de trilhões em estado de disponibilidade. A infidelidade do consumidor maduro não é característica dele; é a nota que ele dá para o atendimento que recebeu.

Há uma consequência estratégica direta: no público jovem, a disputa de marca é um jogo de roubo de participação, caro e incremental, contra concorrentes entrincheirados. No público maduro, para metade do mercado, a disputa é de ocupação de vazio. O custo de aquisição de um cliente que não tem marca preferida e se sente ignorado por todas é estruturalmente menor do que o de arrancar um cliente satisfeito do concorrente. E a recompensa é composta: o cliente 60+ conquistado hoje tem, pela Tábua de Mortalidade do IBGE, duas décadas de relação pela frente, e influencia as compras da família inteira, com o detalhe de que, cada vez mais, é ele quem financia essas compras.

O paradoxo tem ainda uma dobra geracional que o mercado insiste em não ver: o grupo 60+ não é um estoque fixo de pessoas, é uma esteira. A cada ano, entra nele uma safra de brasileiros mais escolarizada, mais digital e mais exigente que a anterior. Quem faz 60 anos em 2026 tinha 28 anos no lançamento do Plano Real, 42 na chegada dos smartphones ao Brasil e passou a vida adulta inteira como alvo prioritário da publicidade. Essa pessoa não vai aceitar virar invisível na virada de um aniversário. A marca que espera o "novo idoso" se comportar como o antigo vai descobrir, tarde, que o cliente mudou de década sem mudar de exigência.

10Trabalho e unretirement: a aposentadoria deixou de ser um fim

A imagem do 60+ como economicamente inativo, base silenciosa de tanto briefing, também está desatualizada nos dados.

O sinal mais recente é institucional: o GEM (Global Entrepreneurship Monitor), maior pesquisa de empreendedorismo do mundo, conduzida no Brasil pelo Sebrae com a Anegepe, incluiu em sua edição 2025 (divulgada em maio de 2026) a faixa de 65 a 74 anos pela primeira vez desde que a série começou no país, em 2001. Durante 24 anos, a principal régua do empreendedorismo nacional simplesmente não perguntava nada a quem tinha mais de 64 anos. E o que a primeira medição encontrou desmonta o estereótipo do empreendedorismo de desespero: entre os empreendedores de 65 a 74 anos, cerca de 63% empreendem por oportunidade, contra 32,5% por necessidade. Na faixa 55-64, a relação se inverte (42,3% oportunidade, 53,3% necessidade), o que sugere uma leitura fina: quem empreende às vésperas da aposentadoria o faz pressionado pela transição; quem empreende depois dela o faz, majoritariamente, porque quer.

O fenômeno tem infraestrutura própria no Brasil. A Maturi (ex-MaturiJobs), fundada em 2015 por Morris Litvak, plataforma de recolocação e desenvolvimento profissional para 50+, já somava mais de 80 mil profissionais cadastrados e cerca de 500 empresas parceiras em 2019, segundo o Instituto de Longevidade. A existência de um mercado organizado de talento maduro convive, porém, com a resistência do lado contratante: levantamentos de consultorias de RH citados pela imprensa indicam que a maioria das empresas brasileiras contrata pouco ou nenhum profissional 50+, o mesmo padrão etário das agências de publicidade.

O pano de fundo global confirma que atividade é o novo normal do envelhecimento. O McKinsey Health Institute, em survey com mais de 21 mil adultos 55+ em 21 países, encontrou correlação consistente entre participação (trabalho, voluntariado, aprendizado contínuo) e saúde percebida, com quem se mantém engajado reportando status de saúde significativamente melhor. A OMS chama isso de envelhecimento saudável e o coloca no centro da Década do Envelhecimento Saudável 2021-2030. Para as marcas, o recado é de posicionamento: o consumidor maduro não quer ser retratado nem como jovem forçado, nem como dependente grato. Ele quer o que os dados mostram que ele é: ativo, produtivo e no comando das próprias escolhas. O primeiro setor que registrou isso em imagem, com um terço das fotos de 50+ agora mostrando uso de tecnologia (AARP, 2024), colheu o crédito. O papel que segue vago é o do 60+ líder, empreendedor e decisor. Menos de 1% dos anúncios o mostram assim. O GEM mostra que ele existe.

11Quem já acertou, e o que os acertos têm em comum

O argumento desta pesquisa não é teórico. Há marcas operando corretamente no território, e seus movimentos têm padrão.

Natura, Brasil, 2017. A marca Chronos lançou em agosto de 2017 a campanha #velhapraisso, atacando frontalmente as "regras não escritas" sobre aparência e idade (cabelo comprido depois dos 50, biquíni, aplicativo de namoro). O detalhe mais estratégico não estava no filme, mas na arquitetura de produto: a Natura afirma ter abolido o termo "anti-idade" de embalagens e comunicação da linha há mais de duas décadas, organizando o portfólio por objetivo de pele e não contra a idade. É a diferença entre usar a pauta e reconstruir a oferta. Fases seguintes trouxeram Zezé Motta, Maria Ribeiro e Débora Bloch, mantendo o tema como plataforma, não como ação isolada.

Grupo Boticário e Nestlé, Brasil, anos 2020. O Boticário levou a conversa para onde o estereótipo diz que ela não existe, com a campanha "Seu Auge é Hoje" protagonizada por influenciadoras 45+ no TikTok. A Nestlé, com Nutren Senior, construiu o posicionamento "O que você quer ser quando envelhecer", transformando a pergunta infantil em manifesto de projeto de vida. Os dois casos, documentados pelo Meio & Mensagem, compartilham a mesma decisão: falar de futuro, não de preservação. O consumidor maduro é tratado como alguém que está indo para algum lugar, não voltando de algum.

L'Oréal Paris, global, desde 2014. A contratação de Helen Mirren, então com 69 anos, como embaixadora da linha Age Perfect, somando-se a Jane Fonda e Julianne Moore, institucionalizou o rosto 60+ no topo do mercado de beleza, a categoria que mais lucrou com o medo de envelhecer. O Stanford Center on Longevity lista o movimento ao lado de casos como Saga no Reino Unido (serviços exclusivos para 50+) e J.Crew nos Estados Unidos, que colheu recordes de venda ao escalar modelos maduras: a demonstração de que o público responde quando se vê no espelho da marca.

O padrão comum é visível: nenhum desses casos "fala com idoso" como segmento exótico. Todos reposicionam a idade como identidade e poder, mantêm a pauta como plataforma de longo prazo e ajustam produto e elenco junto com o discurso. E todos precedem a concorrência em anos, o que confirma a lógica de vazio competitivo: em um mercado onde 52% não têm marca preferida, quem chega primeiro com respeito genuíno não disputa, ocupa.

12As Quatro Idades da Marca: o framework da rito.ag

Para transformar diagnóstico em decisão, a rito.ag organiza a relação das marcas com o consumidor maduro em quatro estágios. O nome é proposital: marcas também têm idade, não no CNPJ, mas na maturidade com que tratam a idade dos outros.

Idade 1: Invisibilidade. O consumidor maduro não existe no planejamento. Não há personas acima dos 55, não há mídia dedicada, não há elenco 60+ fora de datas comemorativas. É o estágio da maioria do mercado brasileiro, como os 4% da CreativeX e os 70% de invisibilidade percebida documentam. O custo é silencioso: a marca não perde clientes maduros que nunca teve, perde o crescimento que nunca mediu.

Idade 2: Caricatura. A marca "inclui" o maduro, mas pelo estereótipo: a vovó da margarina, o senhor confuso com tecnologia, o casal grato na propaganda de plano de saúde. É o estágio mais arriscado, porque paga o custo da produção e colhe o dano da rejeição: o público que se vê retratado "de forma equivocada", nas palavras da pesquisa da AlmapBBDO, não perdoa a marca que o diminui. A queda do enquadramento negativo de 28% para 10% nas imagens americanas (AARP, 2024) mostra que o mercado global está saindo deste estágio; parte do brasileiro ainda está entrando nele.

Idade 3: Gueto. A marca cria a "linha sênior", o "produto para a melhor idade", a comunicação segregada. Há progresso real (o público é visto e atendido), mas o rótulo etário cobra pedágio: ninguém quer comprar o produto que o declara velho, e o rebatismo do próprio Estatuto em 2022 mostra a sensibilidade nacional ao rótulo. O gueto também deixa dinheiro na mesa: exclui os maduros que não se identificam com a categoria "sênior" (a maioria, a julgar pela infidelidade de marca) e os mais jovens que comprariam o produto sem o carimbo.

Idade 4: Pertencimento. A idade deixa de ser segmento e vira dimensão transversal: elenco intergeracional como padrão, produto desenhado por objetivo e não contra a idade, canais multicanal por escolha do cliente, equipes com profissionais maduros decidindo. É o estágio Natura/L'Oréal: a marca não fala "com idosos", fala com pessoas em todas as idades, e é reconhecida por isso exatamente pelo público que as demais ignoram. Nos dados desta pesquisa, é o único estágio compatível com o tamanho e a heterogeneidade reais do mercado.

As Quatro Idades da Marca, framework da rito.ag: da Invisibilidade (o maduro não existe no planejamento) à Caricatura (existe pelo estereótipo), ao Gueto (existe segregado em linha sênior) e ao Pertencimento (a idade como dimensão transversal de produto, elenco e canal) Framework proprietário rito.ag, 2026.

O diagnóstico de estágio é simples de operar: audite os últimos 12 meses de campanhas (quantos rostos 60+, em que papéis), o portfólio (existe produto que só se define pela idade do comprador?), a mídia (que fração da verba alcança 55+?) e o organograma (quantos decisores 50+?). As respostas posicionam a marca em uma das quatro idades, e a distância até a quarta é o tamanho da oportunidade, porque é lá que estão os 52% sem dono.

13E se estivermos errados

A tese desta pesquisa tem limites, e quatro objeções merecem resposta em vez de silêncio.

Primeira: o poder de compra prateado brasileiro pode estar superestimado. Os números de mercado (R$ 1,6 trilhão, R$ 2 trilhões) vêm de estudos comerciais com metodologias não totalmente públicas e amostras enviesadas para cima, como a própria pesquisa registrou. A renda média real do 60+ brasileiro é um benefício previdenciário modesto, parcialmente comprometido com consignado, e a pobreza na velhice, embora baixa em termos relativos (8,3%), convive com enorme desigualdade regional e racial. Resposta: a tese não depende do número exato de trilhões; depende da direção demográfica (incontestável, é o IBGE) e da assimetria de atenção (medida por múltiplas fontes independentes). Mesmo o cenário conservador descreve um mercado gigantesco e negligenciado.

Segunda: segmentar por idade pode ser o erro, não a solução. Se 52% não têm lealdade e a esteira renova o grupo a cada ano, talvez a categoria "consumidor 60+" seja tão artificial quanto o 18-49, e marcas devessem segmentar por momento de vida, renda ou comportamento. Resposta: concordamos, e o framework aponta exatamente para isso; a Idade 4 é a superação da segmentação etária, não seu aperfeiçoamento. O que não se sustenta é a posição atual, em que a idade não é usada para entender o cliente, mas para descartá-lo.

Terceira: a janela pode se fechar sozinha. Pode-se argumentar que o problema se resolve por inércia: os millennials começam a fazer 50 anos em 2031, as equipes envelhecem, a representação melhora gradualmente (como as imagens de tecnologia da AARP mostram). Por que agir agora? Resposta: porque lealdade se constrói antes da concorrência chegar, não junto. Quando a representação madura virar norma, ela deixará de diferenciar. Os casos Natura e L'Oréal valem hoje justamente porque começaram há uma década. O prêmio do pioneiro em um mercado 52% sem dono é dos maiores disponíveis no marketing brasileiro; o prêmio do décimo entrante será nenhum.

Quarta: o risco reputacional do oportunismo. Marcas que abraçarem a pauta da longevidade como estética de campanha, sem mudar produto, canal e equipe, serão lidas como o "purpose-washing" que já desgastou outras pautas. O consumidor maduro, que segundo a AlmapBBDO não consegue citar marcas com que se conecta, tem memória longa para promessas curtas. Resposta: correto, e por isso o framework exige coerência entre as quatro dimensões (elenco, produto, mídia, organograma). A pauta etária punirá o oportunismo com a mesma força com que premiará a consistência.

Registre-se, por fim, a assimetria fundamental do risco: o custo de superestimar esse mercado é uma verba de mídia mal otimizada; o custo de subestimá-lo é assistir, pela margem, à formação do maior bloco de consumo da história do país. Não são riscos comparáveis.

14Cenários 2026-2031: a década em que o alvo muda de idade

Cinco anos separam esta pesquisa do momento em que a primeira leva de millennials cruza os 50 anos, em 2031. O que observar até lá, em três trajetórias plausíveis.

Cenário 1: a corrida da representação (mais provável). A pressão demográfica, os casos de sucesso e a régua internacional empurram as grandes marcas brasileiras para a Idade 3 e algumas para a Idade 4 até 2029. Sinais: crescimento visível de elenco 60+ em campanhas de varejo e bancos (as categorias com mais a ganhar, dada a renda previsível do público); surgimento de métricas de representação etária em relatórios de diversidade das agências; a próxima edição de estudos como o da CreativeX mostrando o 4% global dobrando. Quem já estiver posicionado colhe; quem chegar em 2029 paga o preço da paridade.

Cenário 2: a estagnação seletiva. O mercado melhora a estética (mais rostos maduros) sem mudar a estrutura (verba, produto, equipes), repetindo o padrão americano medido pela AARP: tecnologia sim, liderança não. A percepção de invisibilidade cai pouco, a infidelidade de marca continua alta, e o mercado segue aberto. É o cenário em que a vantagem do movimento genuíno dura mais tempo, porque a concorrência confunde figuração com estratégia.

Cenário 3: a disrupção de fora. Quem captura o mercado prateado não são as marcas estabelecidas, mas nativas da longevidade: fintechs de crédito justo para aposentados, healthtechs, plataformas de trabalho maduro como a Maturi, marcas de beleza sem idade nascidas digitais. O paralelo é o que as fintechs fizeram com os "não bancarizados": o público que o incumbente tratava como residual virou a base de um novo setor. Sinais: rodadas de investimento em agetechs brasileiras, crescimento de assinaturas e serviços 50+ fora do radar da mídia tradicional. Nesse cenário, as marcas estabelecidas não perdem uma campanha, perdem uma categoria.

Em qualquer dos três, uma constante: a esteira demográfica não para. Entre 2026 e 2031, o Brasil ganhará milhões de novos 60+, todos vindos de uma vida inteira como alvo prioritário do marketing. A única pergunta é se as marcas os acompanharão na travessia ou os abandonarão na fronteira dos 59.

15O que uma marca faz com isso agora

Cinco movimentos práticos, em ordem de esforço.

Auditar a própria invisibilidade. Antes de qualquer campanha: contar rostos 60+ nos últimos 12 meses de comunicação, medir a fração da verba que efetivamente alcança 55+, verificar se existe persona madura no planejamento e quantos decisores 50+ participam das aprovações. A maioria das marcas nunca fez essa conta, e ela costuma constranger. O constrangimento é o começo do trabalho.

Corrigir o retrato antes de ampliar o alcance. Aparecer mal é pior que não aparecer: a Caricatura destrói mais valor que a Invisibilidade. Elenco maduro em papéis de decisão, competência e desejo (não de gratidão e cuidado), revisão de roteiro para eliminar o humor à custa da idade, e a pergunta-filtro em toda aprovação: essa pessoa 60+ está indo para algum lugar ou voltando de algum?

Desenhar para a heterogeneidade, não para o rótulo. Substituir a "linha sênior" por arquitetura de produto por objetivo e contexto; garantir que o funil funcione multicanal de verdade (o marketplace e o balcão, o Pix e o carnê); tratar acessibilidade (fonte, contraste, atendimento humano) como qualidade para todos, não como concessão para velhos. As marcas da Idade 4 não têm produtos para idosos; têm produtos que não expulsam ninguém.

Contratar a experiência que falta na sala. Os 6% de profissionais 50+ nas agências e o padrão equivalente nos times de marketing são a causa estrutural do problema. Nenhum workshop de empatia substitui a presença de quem conhece o público por dentro. A marca que exigir diversidade etária das suas agências, como já exige as demais diversidades, mudará o output sem precisar de mais um manual.

Construir a relação de duas décadas. O cliente 60+ conquistado hoje tem, em média, 22,6 anos de vida pela frente, influência crescente sobre o consumo da família e nenhuma lealdade prévia a defender. Programas de relacionamento, comunidade e serviço desenhados para esse horizonte (e não para o trimestre) capturam o valor composto que a concorrência está deixando na mesa. É a inversão final da lógica do 18-49: o consumidor que o modelo antigo descartava por "não ter futuro" é o que oferece o futuro mais longo e mais vazio de concorrência do mercado brasileiro.

16A pergunta que fica

Em 1965, uma emissora de TV em terceiro lugar inventou que o consumidor deixava de valer aos 49 anos, e o marketing mundial transformou a conveniência comercial de uma empresa em lei da física. Sessenta anos depois, o Brasil tem 22 milhões de pessoas 65+, caminha para ser um país com quase 40% de 60+, deposita nas mãos desse grupo a renda mais estável da economia, e continua produzindo publicidade em que ele aparece em 4% das cenas, quase nunca no comando.

Esta pesquisa mediu a distância entre esses dois fatos e encontrou, no meio dela, o maior mercado disponível do país: trilhões em consumo, metade dele declaradamente sem marca preferida, crescendo todos os anos pela única esteira demográfica que não desacelera. Encontrou também o custo invisível da omissão, pago em estereótipo, em saúde e em anos de vida, como a literatura de Yale e da OMS documenta.

A pergunta que fica não é se o mercado vai corrigir essa distorção; a demografia garante que vai, por bem ou por inércia. A pergunta é a que define quem lucra com correções: quando o consumidor que hoje se sente invisível escolher, enfim, as marcas da segunda metade da vida dele, a sua vai estar na lista, ou vai estar explicando no planejamento de 2032 por que descobriu tarde o público que o IBGE anunciou com 40 anos de antecedência?

Transparência da pesquisa

Metodologia

Cruzamento de dados demográficos primários do IBGE (Censo 2022, Projeções da População revisão 2024, Tábuas de Mortalidade, Síntese de Indicadores Sociais), dados de uso de internet do Cetic.br/CGI.br (TIC Domicílios 2024), relatórios da AARP com Economist Impact (Global Longevity Economy Outlook e Longevity Economy Outlook 2026), OMS (Global Report on Ageism, 2021), McKinsey Health Institute, GEM/Sebrae 2025 e estudos brasileiros de mercado (Tsunami60+ da Pipe.Social/Hype60+, AlmapBBDO com QualiBest e Favela Diz, Data8) e de representação (CreativeX, AARP). Revisão de literatura acadêmica em Journal of Personality and Social Psychology, The Lancet, Cadernos Pagu e Galáxia. Cada dado central foi confirmado em segunda fonte independente ou teve a divergência de método e ano explicitada no texto.

Amostra
Análise de fontes primárias e literatura acadêmica
Abrangência
Global, com foco no Brasil
Atualizado em
30/07/2026
Rastreabilidade

Fontes e referências

  1. Metrópoles, Censo 2022: população acima de 65 anos aumentou 57,4% em 12 anos (outubro de 2023, dados IBGE)
  2. Terra, População do Brasil deve parar de crescer em 2041, aponta IBGE (Projeções da População, revisão 2024)
  3. Agência Brasil, Expectativa de vida no país sobe para 76,6 anos, maior já registrada (Tábua de Mortalidade IBGE 2024, novembro de 2025)
  4. Fundação Perseu Abramo, Brasil reduz pobreza ao menor nível em mais de uma década, aponta IBGE (Síntese de Indicadores Sociais, dezembro de 2025)
  5. OMS, Ageing and health, fact sheet (outubro de 2025)
  6. OMS, Global report on ageism (março de 2021)
  7. OMS, Ageism is a global challenge: UN (release, março de 2021)
  8. AARP, Global Longevity Economy Outlook: contribuição econômica dos 50+ (com Economist Impact)
  9. AARP Public Policy Institute, The Global Longevity Economy Outlook (página do estudo)
  10. AARP, Longevity Economy Outlook 2026: os 50+ geram 43% do PIB americano (junho de 2026)
  11. Cetic.br/CGI.br, TIC Domicílios 2024, indicador C2A: usuários de internet por faixa etária
  12. Cetic.br/CGI.br, TIC Domicílios 2024, indicador H9: canais de compra online
  13. Cetic.br, Em duas décadas, proporção de lares com internet passou de 13% para 85% (release TIC Domicílios 2024)
  14. Pipe.Labo, Tsunami60+: a economia prateada (2018)
  15. Consumidor Moderno, Pesquisa mostra hábitos da geração prateada (Tsunami60+, abril de 2019)
  16. Meio & Mensagem, As marcas estão prontas para falar com as mulheres 50+?
  17. Meio & Mensagem, Pesquisa indica presença do etarismo na propaganda (AlmapBBDO, QualiBest e Favela Diz, 2023)
  18. Marketing Brew, Older adults are still underrepresented in ads, new study finds (CreativeX, agosto de 2023)
  19. CBS News, Older Americans are half the country but seldom seen in online ads (AARP, 2019)
  20. AARP via PR Newswire, New AARP research shows positive shift in online images of older adults (setembro de 2024)
  21. Stanford Center on Longevity, How leading brands are winning the 50+ economy
  22. McKinsey Health Institute, Age is just a number: how older adults view healthy aging (maio de 2023)
  23. Agência Sebrae, Mais de 60% dos empreendedores entre 65 e 74 anos empreendem por oportunidade (GEM 2025, maio de 2026)
  24. Grandes Nomes da Propaganda, Natura lança campanha que questiona tabus e padrões de beleza (Chronos #velhapraisso, agosto de 2017)
  25. Senado Notícias, Estatuto da Pessoa Idosa: lei é rebatizada para garantir inclusão (julho de 2022)
  26. Instituto de Longevidade, MaturiJobs: recolocação profissional para 50+ (abril de 2019)
  27. Awful Announcing, How ABC created the 18-49 demographic (fevereiro de 2017)
  28. Levy, Slade, Kunkel e Kasl (2002), Longevity increased by positive self-perceptions of aging, Journal of Personality and Social Psychology, DOI 10.1037/0022-3514.83.2.261 (PDF oficial APA)
  29. Debert (2003), O velho na propaganda, Cadernos Pagu, n. 21, Unicamp
  30. Mikton, de la Fuente-Núñez, Officer e Krug (2021), Ageism: a social determinant of health that has come of age, The Lancet, DOI 10.1016/S0140-6736(21)00524-9
  31. Castro (2016), O idadismo como viés cultural, Galáxia, DOI 10.1590/1982-25542016120675
Em poucas palavras

Perguntas frequentes

O que é a economia da longevidade?

É o conjunto da atividade econômica gerada pelas pessoas com 50 anos ou mais: consumo, trabalho, impostos e cuidado. Segundo o Global Longevity Economy Outlook da AARP com a Economist Impact, os 50+ geraram US$ 45 trilhões em 2020 (34% do PIB global), valor que deve chegar a US$ 118 trilhões em 2050.

Quantos idosos o Brasil tem e quantos terá?

O Censo 2022 contou 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, 10,9% da população, um crescimento de 57,4% sobre 2010. Pelas projeções do IBGE (revisão 2024), as pessoas com 60 anos ou mais passarão de 15,6% da população em 2023 para 37,8% em 2070, e a população total atinge o pico em 2041.

Por que a publicidade ignora o consumidor 50+?

Por herança do modelo de segmentação por idade criado pela TV americana nos anos 1960 (o demo 18-49), pelo idadismo estrutural documentado pela OMS e pela composição das próprias equipes: só 6% dos profissionais de agências brasileiras têm mais de 50 anos, segundo o Observatório da Diversidade da Propaganda citado pelo Meio & Mensagem. O resultado medido: 4% das pessoas nos anúncios têm 60+, e mais de 70% dos brasileiros maduros se sentem invisíveis para a publicidade.

O consumidor 60+ brasileiro compra online?

Sim, e cada vez mais: 63% dos brasileiros 60+ usavam internet em 2024, segundo a TIC Domicílios do Cetic.br, e entre os que compram online, 80% usam marketplaces. Mas o gap digital persiste: 48,2% de todos os desconectados do país têm 60 anos ou mais, o que exige estratégia multicanal.

Fim da pesquisa 009